O Dilema em cadeias de suprimentos gerenciadas: Fornecedor único ou múltiplos

O gerenciamento de cadeias de suprimentos tem como base principal a integração de processos de negócios, que são as interfaces entre as empresas que formam a cadeia de suprimentos gerenciada. Existe uma questão na integração desses processos de negócio, que é fonte quase inesgotável de controvérsia entre os gestores dessa área e se reveste de extrema importância para a competitividade das empresas e da cadeia de suprimentos. Trata-se da forma como os fornecedores e clientes se relacionarão em termos do método de compra e venda de itens que serão utilizados como componentes de um determinado produto acabado e até de um produto de consumo final e este relacionamento pode se dar sob a forma de fornecedor único (também chamado de single-source), ou fornecedores múltiplos (multi-source). Uma busca dos termos relacionados ao assunto nas ferramentas de busca da internet dão a dimensão do dilema. São inúmeros textos acadêmicos (os mais importantes para fins de planejamento estratégico), e técnicos (que dão a dimensão do dia a dia e possui uma visão mais operacional de planejamento). Uma análise em torno do assunto ao longo dos anos de estudo e consultorias, mostra que o cenário real no qual a empresa ou conjunto de empresas se encontra, é determinante na escolha de uma ou outra alternativa de compor o fornecimento.

Os processos de negócio que devem ser integrados entre as empresas de uma cadeia de suprimentos gerenciada, seguem uma linha de recrudescimento das exigências no fluxo de informações e respectivas ações e isto exige uma maior intensidade na carga de trabalho dos gestores da área. Isto se deve basicamente às necessidades de alinhamento das empresas integrantes de uma cadeia de suprimentos em torno de 4 princípios que nortearão as diretrizes de integração dos processos de negócio, quais sejam:

1º – Informação de demanda de consumo final – a demanda de consumo final de um determinado produto deve ser repassada aos integrantes da cadeia, não apenas no curto prazo, mas também no longo prazo, pois isto propicia condições de planejamento do fluxo operacional das empresas (o que produzir, quanto produzir, quando produzir, quando comprar, quando transportar, etc.);

2º – Implantação de Ferramentas de ESG – A sustentabilidade de uma empresa não é medida apenas no âmbito do lucro, mas também em função de suas práticas de sustentabilidade ambiental (dado pela ecoeficiência de processos e produtos), e sustentabilidade social (dado pela inclusão de pessoas no seu ambiente de atuação);

3º – Aplicação de técnicas Compliance – O Compliance refere-se às respectivas normas legais, morais e éticas que uma empresa deve se submeter para manter a reputação do negócio e isto significa que as atividades e profissionais da empresa precisam seguir as diretrizes de compliance determinadas para que não dê origens a eventuais conflitos junto aos seus stakeholders;

4º – Tecnologia 4.0 – A tecnologia da indústria 4.0 se expande para a logística 4.0 e para o gerenciamento da cadeia de suprimentos 4.0 (supply chain management 4.0). Isto significa que a tecnologia de hardware e software utilizados na empresa que adota a tecnologia 4.0, deve passar por estudo profundo sobre a relação de custo x benefício x segurança da informação, antes de ser efetivamente aplicado no fluxo operacional.

As 4 diretrizes mencionadas anteriormente, exigirão das empresas e seus gestores, um esforço tremendo em termos de investimento de tempo e dinheiro na definição de implantação nas respectivas políticas e procedimentos.

Ao analisar as premissas é possível detectar que o dilema entre a contratação de fornecedor único ou múltiplos, reside no cenário, cuja composição pode ter um conjunto de variáveis que podem direcionar o gestor para uma ou outra forma de relacionamento com ou fornecedor ou cliente. Algumas dessas variáveis são: demanda empurrada ou puxada (relação produto x mercado); fornecedor monopolista/oligopolista; Cliente atuando em monopsônio/oligopsônio; componentes com baixa demanda; componentes/produtos commodities; fornecedores localizados no exteror; nível de tecnologia adotada no setor ou segmento do fornecedor/cliente; comprometimento do fornecedor/cliente com o triple bottom line; adoção de técnicas e ferramentas de compliance; etc.

Para cada caso de relacionamento entre cliente e fornecedor, existirá um direcionamento possível e não conflitante e o objetivo será sempre o de melhorar o desempenho dos indicadores da cadeia de suprimentos gerenciada.

Autoria: Mauro Roberto Schlüter

Data: 15/05/2024

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(*) Professor de Logística na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Campus Campinas