Ano: História pré-colonial, até 1500

As Pirogas

As pirogas estão entre as embarcações mais antigas da humanidade. Produzidas a partir de um único tronco de árvore escavado, elas eram utilizadas por diferentes povos originários muito antes da chegada dos europeus ao continente americano.

Na Amazônia, por exemplo, essas embarcações desempenhavam um papel essencial na vida cotidiana. Em uma região marcada por extensos rios e igarapés, as pirogas permitiam deslocamentos entre aldeias, atividades de pesca, transporte de alimentos e realização de trocas comerciais, ou, escambo.

Uma das mais antigas representações europeias dos indígenas brasileiros, 1519.
(Fonte: Wikipedia)

A construção de uma piroga exigia conhecimento profundo da floresta. Os povos originários sabiam identificar as árvores mais adequadas, considerando resistência, leveza e durabilidade da madeira. Depois do corte, o tronco era cuidadosamente escavado com ferramentas rudimentares e técnicas transmitidas entre gerações.

Em muitos casos, o fogo também era utilizado para auxiliar na escavação e modelagem da madeira, revelando um domínio sofisticado dos materiais naturais disponíveis.

Pirogas monóxilas encontradas em Portugal que ajudam a explicar os primórdios da navegação.
(FONTE National Geographic)

Pirogas encontradas no rio Lima em Viana do Castelo, 2022.
(Fonte: ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural)

 

Em outubro de 2014, uma embarcação feita de araucária foi encontrada por um pescador no Rio Grande, divisa de Andrelândia e Santana do Garambéu, no sul de Minas Gerais. A “piroga”, nome comumente atribuído pelos indígenas às canoas, pode datar como tendo sido fabricada entre 1480 e 1660, isto é, entre os séculos XV e XVII, segundo o teste de Carbono 14 em uma amostra da madeira, realizado pelo Laboratório Beta Analytics, em Miami, na Flórida (EUA), e encomendada pelo Núcleo de Pesquisas Arqueológicas (NPA) do Alto Rio Grande.

Canoa pré-histórica foi encontrada no leito do rio.
Foto: O Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande – NPA

 

Canoa pré-histórica foi encontrada no leito do rio.
Foto: O Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande – NPA

 

Leves e estreitas, as pirogas eram ideais para navegar pelos rios amazônicos, inclusive em áreas de difícil acesso. Algumas eram movidas a remo, enquanto outras utilizavam longas varas para impulsionar a embarcação em regiões rasas.

Mais do que simples meios de transporte, essas embarcações representavam a conexão entre os povos e os rios. A navegação fazia parte da cultura, da sobrevivência e da organização territorial das comunidades indígenas.

Com o passar do tempo, as técnicas indígenas de construção naval influenciaram diferentes tipos de embarcações utilizadas durante o período colonial e permaneceram presentes na cultura ribeirinha da Amazônia.

Ainda hoje, em diversas comunidades, as pirogas continuam sendo utilizadas no transporte local, preservando práticas ancestrais e mantendo viva a tradição milenar.

Povos Originários.
Crédito: Foto de Ricardo Stuckert

 

Referências Bibliográficas:

GUIMARÃES, Maria. “Povos interligados da Amazônia antiga”. Revista Pesquisa da Fapesp. Edição 299, janeiro de 2021.

LOPES, Reinaldo José. “Acre tinha rede de estradas antes de Cabral”. Folha de S. Paulo. 03 de janeiro de 2021.

PESSOA, Cliverson. “Do Manutata ao Uakíry: história indígena em um relato de viagem na Amazônia Ocidental (1887)”. Tellus, p. 81-103, 2017.

PIVETTA, Marcos. “Mais gente na floresta”. Revista Pesquisa da Fapesp. Edição 267, maio de 2018.

SAUNALUOMA, S., Moat, J., Pugliese, F., & Neves, E. (2020). “Patterned Villagescapes and Road Networks in Ancient Southwestern Amazonia”. Latin American Antiquity, 2020, 1-15.

SOUZA, J. G. et al. “Pre-Columbian earth-builders settled along the entire southern rim of the Amazon”. Nature Communications. 27 mar. 2018.