Joaquim Constantino Neto – O transporte como vocação
Publicada originalmente na Revista CNT n° 349 – ANO XXXI – julho de 2025
Há mais de seis décadas, a família Constantino tem atuado em várias frentes do transporte brasileiro, com ênfase na mobilidade urbana, mas também com participação marcante no segmento rodoviário de passageiros e no modal aéreo. No início dos anos 2000, essa constelação de empresas passou a se identificar sob o nome de Grupo Comporte. Mais recentemente, em 2022, a holding arrematou a concessão do metrô de Belo Horizonte, alcançando definitivamente o status multimodal. Hoje, o Grupo opera em 15 estados e no Distrito Federal, atendendo mais de 700 cidades. A frota de ônibus é de mais de 6.500 veículos. São 35 trens e 22 VLTs (veículos leves sobre trilhos). Estima-se que esses sistemas movimentem mais de 420 milhões de passageiros por ano. Esses números são motivo de orgulho para Joaquim Constantino Neto, que administra o império ao lado dos irmãos. Na entrevista a seguir, o empresário recorda alguns passos decisivos dados pela holding, com ênfase na novíssima operação metroferroviária na região metropolitana de São Paulo. E destaca o papel da cultura da empresa e dos valores da família na construção de uma marca que, acima de tudo, respeita a experiência do usuário e valoriza os colaboradores.
Revista CNT | Recentemente, a Comporte venceu o leilão para operar três linhas de trem na capital paulista. O que essa nova operação agregará em termos de mobilidade?
Joaquim Constantino Neto | Nós iniciamos as operações com trilhos, em 2016, com uma PPP (parceria público-privada) com o governo do estado de São Paulo para o VLT da Baixada Santista, que circula de Santos a São Vicente. Posteriormente, entramos no leilão do metrô de Belo Horizonte (MG), que vai da região de Venda Nova até o bairro Eldorado, no município de Contagem. Depois, houve a extensão da linha 2, até Barreiro, e, agora, está sendo inaugurada a estação Nova Eldorado, também em Contagem. Fizemos a reforma das estações, a aquisição dos trens novos, a troca de sinalização, trilhos e dormentes e a construção de um CCO (Centro de Controle Operacional) moderno, entre outras melhorias. Em relação à Grande São Paulo, assumimos as linhas 11, 12 e 13 da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Com o objetivo de estender a região metropolitana até Campinas, vamos operar o Trem Intercidades (o TIC, em parceria com a empresa China Railway Construction Corporation), que será o primeiro trem de média velocidade do Brasil. E vamos construir uma nova linha entre Jundiaí e Campinas, passando por Louveira, Valinhos e Vinhedo. O que eu posso dizer sobre as linhas 11, 12 e 13 é que o sistema terá muitas novidades, porque levará a linha 13 até o bairro de Bom Sucesso, oferecendo um serviço além do Aeroporto de Guarulhos. Já no retorno, no sentido São Paulo, será construída uma estação em Gabriela Mistral que vai possibilitar mais conexões e ligações para os usuários. Devemos também prolongar a linha 11 além da cidade de Mogi das Cruzes.
Revista CNT | Em algumas praças, a Comporte opera em mais de um modal. Há intenção de, no futuro, integrar sistemas?
Joaquim Constantino Neto | Nossa estratégia sempre foi voltada para a mobilidade. Temos mobilidade por ônibus em vários segmentos. No futuro, se houver oportunidade de integrar sistemas metropolitanos, rodoviários e até mesmo o urbano com as estações de metrô, nós o faremos com certeza. Na cidade de Mogi das Cruzes, por exemplo, onde para o metrô da linha 10 (Terminal Estudantes), nós já operamos o sistema municipal, então lá haverá integração, o que vai ser feito com bastante tecnologia e de forma proveitosa para o usuário.
Revista CNT | Para continuar inovando, que ferramentas o Grupo tem utilizado?
Joaquim Constantino Neto | Utilizamos algumas ferramentas próprias e de terceiros. Trabalhamos, por exemplo, com a Prodata (empresa com foco em sistemas de transporte inteligentes) e com a Dataprom (soluções para mobilidade). Com elas, temos tecnologia de reconhecimento facial e para a leitura de QR Code pelo celular e outras inovações para facilitar a vida do usuário em um sistema multimodal, sem ter que portar vários tipos de cartão no bolso. Além disso, nosso sistema de controle interno é o SAP S/4Hana (software de planejamento de recursos empresariais inteligente, integrado ao pacote de soluções RISE with SAP). Utilizamos também a Salesforce (que é uma plataforma de CRM, customer relationship management). Para o transporte rodoviário, a gente tem uma plataforma própria, a Mobifácil (para compra, remarcações e cancelamento de passagens), que tem as rotas cadastradas e convênio com outras empresas além das nossas.
Revista CNT | O senhor foi um dos participantes da Missão Internacional do Transporte – Japão 2025, realizada pelo Sistema Transporte em maio deste ano. Que experiências japonesas poderiam ser aplicadas à realidade brasileira?
Joaquim Constantino Neto | O que conseguimos avaliar é que existe uma preocupação muito grande dos japoneses com a questão ambiental, da limpeza e da proteção ao usuário. Por exemplo, os toaletes são higienizados a cada instante, o que previne contaminação. Também prezamos por isso no Brasil. Toaletes de ônibus, de rodoviária, têm de agregar conforto e segurança ambiental ao usuário. Outra coisa que salta aos olhos é a evolução da inteligência artificial, embora ainda requeira acompanhamento humano para garantir acessibilidade e alinhamento ao propósito da empresa. Hoje, a IA já agrega muito na preparação de respostas nos sistemas de chatbot. A pessoa acessa o serviço e o robô antecipa o procedimento, facilitando a vida dela, para que não fique na fila de espera de um SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente).
Revista CNT | Quais práticas sustentáveis vêm sendo adotadas pelo Grupo?
Joaquim Constantino Neto | Hoje, nossa frota inteira está equipada com freios ABS e toda ela tem parametrização de acordo com os fabricantes, de modo a mitigar a emissão de poluentes. Isso se alinha ao nosso programa de treinamento de motoristas, o Motorista Nota 10. Esse trabalho é feito para uma boa condução, que se reflete em frenagem, jogo do volante, velocidade do veículo e rotação do motor. O treinamento faz com que o motorista tenha uma condução mais tranquila, o que acaba reduzindo as emissões. Embora o objetivo seja socioambiental, no fim das contas, há também economia de combustível e, como sabemos, combustível é o segundo principal custo da operação, depois da folha de pagamento. Em uma empresa de transporte, seja urbano ou rodoviário, esses dois itens são os que mais pesam. Outro ponto muito importante é que o treinamento evita acidentes. Isso vale para os chamados acidentes internos, pois, dentro de um veículo de transporte urbano, há idosos e crianças que, eventualmente, estão em pé durante a viagem. Nossos motoristas são nossos maiores representantes.
Revista CNT | Que tipo de iniciativa a Comporte desenvolve para valorizar esses profissionais?
Joaquim Constantino Neto | Dia 25 de julho é dia de São Cristóvão e é o Dia do Motorista. É um dia para valorizar os nossos profissionais. Damos uma lembrança para eles e celebramos da mesma forma que outras empresas costumam fazer no Natal, por exemplo. Nessa data, os gerentes vão de madrugada às garagens para pegar a primeira leva de motoristas e tomar um café da manhã especial. Essa celebração dura o dia inteiro, com lanches e distribuição de brindes. Valorizamos de fato. Por exemplo, para aqueles que fazem o transporte rodoviário, oferecemos alojamentos muito bem-feitos, ajustados para que tenham o descanso merecido, com bom banho, higiene e silêncio. Assim, podem prosseguir viagem da melhor forma.
Revista CNT | O senhor acabou tocando em temas da agenda ESG (ambiental, social e de governança). Pensando no pilar ambiental, como a empresa planeja a renovação de frota?
Joaquim Constantino Neto | A idade média da nossa frota é de 3 anos. Nas linhas rodoviárias, essa idade cai para 2 anos. Então, temos uma idade média muito baixa em relação ao sistema. A frota é de 6.500 veículos, sendo que, todos os anos, 1.500 são renovados. Boa parte deles, de 25% a 30% do total, atendem aos critérios do Euro 6 (equivalente à fase 8 do Proconve, o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores). Lembro que esses veículos são muito menos poluentes do que os Euro 5. E, também, ocorre a adição de Arla 32 (catalisador que reduz a emissão de óxidos de nitrogênio provenientes da queima do diesel). Estamos testando os movidos a gás (GNV, gás natural veicular) e já estamos operando com elétricos em Bauru (SP), Santos (SP), Maringá (PR) e, também, em Brasília (DF). Enfim, a frota vem evoluindo e estamos trabalhando para ter uma matriz energética que compense para o usuário e para a atmosfera.
Revista CNT | Boa parte das empresas do setor teve origem familiar. Como a família Constantino lidou com a sucessão?
Joaquim Constantino Neto | A primeira passagem foi do meu pai para nós. Então, somos um grupo de segunda geração, mas com cara de primeira. Isso porque meu pai cortou o cordão muito depressa e tivemos que crescer. Fomos primeiro para o ramo da aviação. Agora, estamos no ramo dos trens. Tudo isso foi feito a partir da mobilidade, da atuação em transporte de passageiros. Neste momento, estamos fazendo um processo de trainee com os filhos. Entre os 12 dessa geração, cinco já estão no programa. Nossa gestão é profissionalizada e eles estão se integrando em diferentes áreas da empresa. Tem espaço na estrutura para que cada um se encaixe em um eixo do negócio.
Revista CNT | Qual foi a importância do crescimento inorgânico, a partir de aquisições e fusões, para a consolidação do Grupo Comporte?
Joaquim Constantino Neto | Nosso crescimento se deu com aquisições e, em seguida, fusões. Foi feito assim para otimizar a operação, para ter um custo mais atualizado. E a gente continua com os módulos de gerentes regionais, para não perder a eficiência nem a agilidade do negócio. No nosso ramo, tem que ter muita atenção em campo, porque não é o grande que engole o pequeno — é o rato que engole o lerdo. Hoje, você tem, por exemplo, os aplicativos disputando os passageiros. Então, agilidade é essencial.
Revista CNT | Como o senhor percebe a atuação do Sistema Transporte em prol do setor?
Joaquim Constantino Neto | Houve muita evolução. Por exemplo, quando o SEST SENAT foi criado, trouxe, principalmente, serviços para os motoristas em saúde e capacitação profissional. Mas não parou por aí. As entidades do Sistema — CNT, SEST SENAT e ITL —, estão vendo à frente. Então, quando menos esperávamos, surgiram programas para gerentes, para CEOs. Quando achávamos que o trabalho estava completo, surgiram as Missões Internacionais, as iniciativas em ESG e sustentabilidade. Para o transporte de cargas ou de passageiros, haverá inovações a serem abordadas pelo Sistema. Além disso, a CNT fornece pesquisas para a gente se orientar e saber quais rumos o país está tomando. Tudo isso traz uma satisfação muito grande para os empresários.
Revista CNT | Para finalizar, que mensagem o senhor deixa para jovens lideranças do transporte?
Joaquim Constantino Neto | A nossa pauta sempre foi a valorização do trabalhador, do gerente, das pessoas que prestam serviço para a gente. Valorização, principalmente, do motorista, do piloto, do operador de trem. As pessoas têm de sentir prazer de trabalhar. Só assim elas levam o nome da empresa consigo.
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