João Guilherme Araújo – Falta de mão-de-obra virou um problema para a logística

Publicada originalmente na Revista LogWeb n° 121 – março de 2012

O diretor de desenvolvimento de negócios do ILOS – Instituto de Logística e Supply Chain explica de que maneira o problema pode ser solucionado e como os setores público e privado deve agir, além de apontar porque a infraestrutura brasileira ainda precisa de muito investimento.

Quinto país do mundo em extensão territorial e com uma imensa capacidade de aproveitamento de seus recursos naturais, o Brasil destrói sua grande competitividade resultante dessa vantagem natural quando ela se encontra e depende de um fator muito importante: a logística.

O país é, apenas, o 41° na capacidade de escoar sua produção interna, dentro de suas próprias fronteiras ou para fora. Dentro desse cenário, a falta de mão-de-obra em todos os níveis da cadeia é o maior problema enfrentado pelo setor.

Os dados apresentados por João Guilherme Araujo, diretor de desenvolvimento de negócios do ILOS – Instituto de Logística e Supply Chain (Fone: 11 3847.1909), durante o comitê de Logística Amcham – São Paulo impulsionaram a revista Logweb a realizar uma entrevista exclusiva com ele para expor como um país com tantos recursos naturais não consegue ultrapassar a barreira da qualificação profissional para escoar sua produção.

Aproveitando a experiência do profissional, também abordamos outra séria questão que emperra o crescimento da logística no país: infraestrutura.

Segundo pesquisa do Ilos, o Brasil tem, hoje, 1.600 km de estradas (nāo pavimentadas) e 214.000 km de rodovias. No caso de ferrovias, são 29.000 km.

Isso significa que há mais de 7 km de estradas para cada quilômetro de linha férrea em operação. Enquanto isso, nos Estados Unidos há 2,4 km de ferrovias para cada 100 km2 de área, enquanto esse índice no Brasil está em 0,33 km. São 4,21 milhões de quilômetros de estradas pavimentadas e 227.000 km de trilhos no território americano. Além de estradas e linhas férreas, o Brasil tem 19.000 km de dutovias e 14.000 km de hidrovias, já os Estados Unidos têm 793.000 km e 41.000 km, respectivamente.

Esses números mostram como a malha brasileira ainda precisa de investimentos para que os gargalos logísticos sejam exterminados e as empresas possam competir num ambiente mais vantajoso.

Uma pesquisa sobre o índice de desempenho logístico feita pelo Banco Mundial mostra que o Brasil passou da 61ª à 41ª posição entre 2007 e 2010.

O país aparece à frente de Índia (47° em 2010) e da Rússia (94°), mas fica muito atrás de China (27°), EUA (15°) e Canadá (14°).

Além disso, ainda perde para pequenas nações, como Alemanha (1°), Suécia (3°), Holanda (4°) e Luxemburgo (5°).

Entre os 10 dos principais entraves ainda aparecem malha ferroviária insuficiente (77%), falta de infraestrutura para intermodalidade (72%), má qualidade dos acessos terrestres aos portos (71%), rios sem infraestrutura para navegação (70%), malha ferroviária mal conservada ou insuficiente (68% cada), falta de infraestrutura de armazenagem ou de terminais (67%), poucos portos (B7%) e navegabilidade pouco eficiente nas hidrovias (87%).

Logweb: Por que falta tanta mão-de-obra no país quando falamos do setor de logística?

Araujo: Na verdade, esse é um problema que não está restrito à logística. Atualmente, esse é um dos grandes gargalos do país, estampando, inclusive, capas de revistas e periódicos. Acho que o problema em logística é o mesmo dos demais, uma consequência de um movimento econômico crescente e contínuo em um país com baixíssimo índice de educação em todos os níveis – elementar, básico, técnico e superior. O quadro em logística é mais grave por se tratar de uma área de foco mais recente das empresas e, portanto, nem investimentos pontuais do setor privado foram feitos ainda em escala relevante.

Logweb: O que foi feito nos últimos anos para que chegássemos ao ponto de não termos profissionais qualificados no setor? As empresas deixaram de in- vestir em treinamentos?

Araujo: Foi feito muito pouco investimento em educação, há um péssimo planejamento do Estado e pouca antecipação empresarial. As empresas não deixaram de investir, mas a responsabilidade não pode ficar toda nelas e, novamente, no caso de logística, por se tratar de uma área mais nova no radar central das companhias, esse investimento não chegou perto do necessário.

Logweb: O que é preciso para que esse problema seja solucionado?

Araujo: Planejamento de médio/longo prazo, adequação dos planos governamentais para educação, aumento nos projetos de estudo técnico e profissionalizante, investimentos privados e a mescla com profissionais vindos de outros segmentos ou países (no limite extremo e já acontecendo em diversos segmentos).

Logweb: As ações das empresas sempre visam ao lucro e, para isso, os gastos precisam ser baixos. O que as empresas ganham com o treinamento dos colaboradores, que justifiquem os investimentos em treinamento?

Araujo: Ganham uma enormidade de resultados. No caso da logística, isso é ainda mais verdade por se tratar de um segmento de serviço onde o time da empresa faz grande parte da diferença e de sua vantagem competitiva. Os ativos podem ser comprados e copiados, mas pessoas e o serviço exigem treinamento, qualidade, retenção e atenção às tarefas.

Logweb: Quais as vantagens de uma equipe bem treinada?

Araujo: Equipe bem treinada é uma imbatível vantagem competitiva para qualquer empresa ou área interna de serviço que queira ser bem-sucedida. Esse investimento volta em cliente satisfeito, lealdade de compra, produtividade na execução, redução de custos extras e retrabalho, facilidade de transferência de conhecimento e cultura organizacional, inovação, desenvolvimento de novos produtos e serviços e retenção de talentos, entre outros benefícios.

Logweb: Você percebe no mercado aumento na intenção das empresas em realizar treinamentos para a mão-de-obra ou elas estão deixando essa questão de lado?

Araujo: Sim, percebemos essa preocupação e um aumento de investimentos neste setor. Temos, inclusive, clientes que estão propondo iniciativas para treinamento de funcionários de seus fornecedores! Exemplo disso é uma empresa de bens de consumo que está trabalhando junto ao sistema S (formado pelo Senai, Senac, Sesi, Sebrae e outras instituições ou organizações do setor produtivo) um projeto de qualificação para motoristas de caminhão de seus fornecedores de transporte.

Logweb: Como você percebe uma equipe bem treinada?

Araujo: Vemos quando uma equipe é bem treinada por meio de eficiência e eficácia nas atividades de rotina, produtividade das operações, ausência de custos imprevistos ou retrabalhos, reconhecimento dos clientes e no clima organizacional da empresa.

Logweb: O que um profissional que atua em logística precisa ter?

Araujo: Logística e um campo muito vasto, que pode ser subdividido em diversos outros conhecimentos mais específicos, como transporte, armazenagem, estoques, planejamento de vendas e operação, suprimentos e outros. Para responder em uma frase, diria que o profissional de logística precisa ser dono do bom senso e fazer sempre mais com menos, ao limite de fazer tudo com nada.

Logweb: Em termos de infraestrutura, o que ainda precisa ser resolvido?

Araujo: Tudo, sendo isso um alvo móvel. Em outras palavras, temos muito para fazer no Brasil em todos os modais de transporte. E os países onde a infraestrutura instalada já é boa, também possuem muito por fazer, pois o comércio exterior é cada vez maior e os alvos são moveis para qualquer país minimamente aberto ao livre comércio.
Não se corre contra seu passado e, sim, contra os demais players daquele tipo de produto ou serviço no mundo.

Logweb: Qual é o modal que mais precisa de investimentos em infraestrutura?

Araujo: Todos precisam, sendo o rodoviário o de maior monta por sua representatividade no total de movimentações de cargas do país, por volta de 65% de tudo que se movimenta.
Temos grandes oportunidades em todos, até para ajudar a mudar essa matriz de transporte para uma representatividade de modais que deveriam ser mais competitivos no país, como o ferroviário e aquaviário.

Logweb: O que o governo tem feito para sanar esses problemas?

Araujo: O governo tem procurado estimular o transporte nas agendas do Programa de Aceleração do Crescimento 1 e 2. Depois dos investimentos em energia e socias, transporte entra no radar em termos de total planejado para investir, infelizmente, com isso tudo, o percentual de investimento ainda é muito menor que o necessário. Para se ter uma ideia, se conseguirmos realizar todos os investimentos previstos para transportes para os próximos anos estaremos falando de um número por volta de 0,5% do nosso PlB. Países que se diferenciam em sua infraestrutura e matriz de transportes investem por volta de 5% do PIB e nós mesmos, nos anos militares, já chegamos a investir por volta de 3%. O que agrava a situação é que esse quadro de baixo investimento vem de muito tempo, o que faz com que qualquer número hoje seja insuficiente porque não estamos falando nem de expansão de malha, mas de manutenção adequada do que está por al e algumas diminuições de gargalo operacional. Outro caminho extremamente importante e efetivo para o governo é o de evoluir e estabilizar os marcos regulatórios do segmento.
Por tudo que já disse, é claro que não devemos esperar que todo o investimento venha do governo. Grande parte pode e deve vir do setor privado, mas nesse caso a contrapartida a ser dada são contratos claros, respeitados, seguros no longo prazo e coerentes com o segmento. Isso atrai o capital privado e ajuda a desatar o nó de infraestrutura mais rapidamente.
No nosso setor, falamos de investimentos que têm maturação de longo prazo, entre 10 e 20 anos. Sem um marco regulatório claro e respeitado, não se traz capital privado para isso, Exemplos recentes dessa direção vêm ocorrendo em concessões rodoviárias, tentativas de evolução na ferrovia, leilões iniciais em aeroportos e investimentos portuários.

Logweb: Quais seriam as primeiras providências, tanto privadas quanto públicas, para solucionar os problemas de infraestrutura e baixa qualificação dos colaboradores?

Araujo: Sobre infraestrutura, acho que falei antes. Sobre mão-de-obra, seria um trabalho sério e de longo prazo do Estado em educação e de parcerias e associações com o setor privado no curto prazo. Acho que o sistema S pode e deve ajudar bastante nisso, assim como as empresas individualmente estão procurando fazer sua parte. Claro que as empresas possuem, também, o atalho de “briga de talentos”, mas isso no médio prazo é insustentável e traz pressão inflacionária para toda a cadeia.
Resumindo, tanto infraestrutura quanto mão-de-obra sio investimentos de longo prazo, inadiáveis e inesgotáveis. Quanto mais fizermos, mais estaremos construindo o futuro. Quanto menos fizermos, mais pressionamos o presente.


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