João Augusto Conrado do Amaral Gurgel – Do artesanato à indústria

 

Publicada originalmente na Revista BR n° 253 – dezembro de 1987

 

Enquanto dá os últimos retoques no Cena, seu mais novo projeto, Gurgel pede mudanças na política de combustíveis e critica o controle de preços.

Engenheiro mecânico pela Politécnica de São Paulo, turma de 49, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel completou seus estudos no General Motors Institute, de onde saiu em 1953 portando um diploma de engenheiro automobilístico e a firme disposição de ser um empresário do setor. De volta ao Brasil, Gurgel durante dez anos produziu minicarros motorizados, réplicas de modelos famosos, e karts de competição. Com os dois diplomas, experiência e perseverança, fundou em 1969 a Gurgel S/A, que contabilizou inicialmente a modesta produção de quatro veículos mensais. Em 1975, transferiu a indústria para Rio Claro, no interior do Estado de São Paulo.

Em 1981, ancorado em treze mil metros quadrados de área construída, a Gurgel lançou o primeiro carro elétrico da América Latina, o Itaipu E-500. De lá para cá a empresa somou à sua linha de montagem o Gurgel X-12, jipe, versões álcool e gasolina, a picape G-800, para seis pessoas e 1.100 quilos de carga, e o Carajás, de arrojado design.

No momento em que sua empresa dá os últimos retoques no pequeno Cena, de dois cilindros, tocado a álcool ou gasolina, idealizado para trafegar 25 quilômetros com um litro de combustível, nas versões automóvel, picape e furgão, Gurgel recebeu Brasil Transportes na fábrica de Rio Claro, e falou sobre combustíveis, indústria montadora, controle de preços e Assembléia Nacional Constituinte. Gurgel, que dispara suas idéias como uma metralhadora giratória, está empenhado em abiscoitar para o Cena 6% do mercado nacional de automóveis.

Se tudo for bem, ele quer colocar na rua 60 mil unidades por ano do Cena. Nada mau para o engenheiro que começou produzindo artesanalmente pequenas réplicas de automóveis e karts.

Brasil Transportes – O sr. lançou recentemente um manifesto à Nação e às autoridades sobre o Proálcool. O que isso significa?

Gurgel – Neste manifesto eu defendo o redirecionamento do Proálcool. A produção do álcool hidratado deveria ser imediatamente interrompida, passando-se a fabricar o álcool anidro num volume de 3 milhões de litros por ano, que seria usado como aditivo antidetonante. A Petrobrás, por sua vez, voltaria a produzir dois tipos de gasolina, a normal (amarela), com 85 octanas e a super (azul), com 98 octanas aditivadas com álcool anidro.

BT – Como ficaria os usineiros?

Gurgel – A margem do usineiro por litro de álcool seria aumentada em quatro vezes, compensando assim a redução da produção da usina. Essa mudança faria do álcool anidro um aditivo altamente competitivo com o chumbo tetraetila, e sem subsídios. Por outro lado, 75% da área plantada atualmente com cana seria gradativamente destinada à produção de alimentos.

BT – E quanto aos veículos a álcool?

Gurgel – A produção deveria ser interrompida. A indústria automobilística deveria produzir só veículos movidos a gasolina, proporcionando com isso substancial redução nos custos. Os carros a álcool seriam gradativamente transformados em carros movidos a gasolina azul. Além disso, a gasolina azul é de importância mundial e já provou sua eficiência termodinâmica nos motores de combustão interna, proporcionando a redução do custo operacional do veículo.

Assim, a proposta devolverá à Petrobrás o monopólio da produção de combustíveis, proporcionando-lhe lucro suficiente para investir mais na prospecção de petróleo, o único combustível economicamente viável para veículos nos próximos sessenta anos.

BT – E a discussão da Autolatina com o governo federal sobre reajuste de preços?

Gurgel – É um caso delicado. Nenhuma empresa pode perder dinheiro por muito tempo. Eu nunca aceitei o CIP (Conselho Interministerial de Preços). Posso ir a falência por má administração, por erro de mercado, por falta de produtividade, mas não admito quebrar por decreto. No caso da Autolatina, há um compromisso assinado com o governo. Não vou discutir juridicamente esse protocolo. Poderia ser até um acordo verbal. Mas foi escrito, a Autolatina cumpriu sua parte, acho justo dessa forma que ela exija o prometido pelo governo federal.

BT – A indústria automotora deveria então ser regulada apenas pelo mercado?

Gurgel – Acho que sim. Não só a indústria montadora de veículos, mas o Brasil todo. O governo não deve controlar preços. Deve, isso sim, ser um fiscal dos abusos e dos cartéis. O governo não deve dizer qual é o preço de um refrigerante, de um automóvel. Não deve fixar preços de nenhum produto. Isso de dizer que o CIP aprovou aumento de 34,57%, por exemplo, é até cretino. É um “chute” que um engenheiro não pode aceitar. É o mesmo que falar que de Rio Claro (nota da redação: a entrevista foi concedida nas instalações da Gurgel em Rio Claro, interior do Estado de São Paulo) a São Paulo há 171 mil e 652 metros e 36 centímetros. Não tem cabimento. Ninguém pode medir com tanta precisão. Cada um que calcular vai chegar a um número diferente. Se a inflação diária é de 0,5%, como o CIP pode chegar a centésimos de por cento ao autorizar um reajuste?

BT – A Assembléia Nacional Constituinte está fazendo um bom trabalho?

Gurgel – A Constituinte parece uma colcha de retalhos. Eu acho que é a mesma coisa que reunir dez pessoas em torno de uma mesa e solicitar a elas que escrevam uma carta ao presidente da República. Suponha que cada uma delas escreva um parágrafo. Provavelmente, entre essas pessoas há amigos e inimigos do presidente da República. Essa carta não terá começo, meio e fim. A carta terá de ser refeita, passada a limpo, para ser coerente com o interesse do povo brasileiro.

BT – A disposição norte-americana de embaraçar as exportações brasileiras e os repetidos prejuízos podem levar a indústria automotora a reduzir suas atividades no Brasil?

Gurgel – Não posso dizer se as montadoras vão sair do País, até porque qual- quer empresa pode agir assim. Acontece que o Brasil precisa desesperadamente do investimento estrangeiro. Eu costumo dizer que no Brasil existe uma fábrica de crianças. Produzimos mais de três milhões de crianças por ano. Na idade adulta elas precisam de empregos. O País precisa criar cerca de 1,8 milhão de empregos por ano.

Se tomarmos por base o custo de dez mil dólares por emprego não especializado, temos que investir dezoito bilhões de dólares por ano para empregar todo esse pessoal. Acontece que não temos esse dinheiro. Precisamos do capital estrangeiro, qualquer empresa que venha ao Brasil é bem-vinda.

No caso das montadoras, todas elas são interligadas, se uma deixar o País, as demais vão pensar no assunto. A Toyota está aqui. As duas maiores empresas dos Estados Unidos estão aqui, GM e Ford; as duas maiores da Alemanha também, a Mercedes-Benz e a Volkswagen; a maior empresa da Itália no setor, a Fiat, também está aqui. As duas maiores empresas suecas do ramo, a Volvo e a Scania, também já estão aqui. Como vamos trazer mais empresas para o Brasil se elas devem subordinar-se ao CIP? Eu, por exemplo, não iria para país nenhum cujo governo determine quais são meus preços. Não iria para perder dinheiro e quebrar. O investimento pressupõe retorno.

BT – A médio e longo prazos, a Gurgel poderá estar entre as maiores montadoras do País?

Gurgel – O início do caminho já foi traçado. É o projeto Cena, o Carro Econômico Nacional. É um carro destinado a uma faixa de mercado que nunca foi do interesse das multinacionais. Se houver apoio do governo o carro dará certo. Estamos investindo cinco milhões de dólares numa fábrica piloto e acertando pequenos detalhes do carro. Temos que investir mais noventa milhões de dólares para expansão da fábrica. O carro tem um mercado para cinco mil unidades mensais e sessenta mil por ano. A Gurgel pretende, numa primeira etapa, conquistar 6% do mercado nacional.

BT – E os problemas envolvendo a Gurgel e o piloto de Fórmula 1 Airton Senna?

Gurgel – Foi uma palhaçada. O carro Gurgel será sempre Gurgel. Seria uma burrice de minha parte dar a um carro meu o nome de um piloto. Os objetivos de cada um são completamente diferentes. O meu carro é feito para durar dez anos ou duzentos mil quilômetros. Aírton Senna esforça-se durante duas horas para vencer uma prova. Ele faz um quilômetro com um litro de combustivel, enquanto meu carro faz 25 quilômetros com um litro.

BT – A Gurgel tem interesse pelo mercado de veículos pesados?

Gurgel – Não. O Brasil é bem suprido nesse segmento. Temos caminhões da Ford, da Mercedes-Benz, da Scania, da Volvo, da General Motors. Daqui a dez anos, a Gurgel talvez até monte aviões. Por enquanto, vamos ficar com o nosso pequeno carro.

Acesse em nosso acervo a edição da Revista BR n° 253 – dezembro de 1987: CLIQUE AQUI

Acesse o recorte da entrevista em nosso acervo: CLIQUE AQUI