Cláudio Regina – O Gigante Balança

Publicada originalmente na revista Transporte Moderno n. 389 de junho de 1999

Dia 7 de junho de 1999, a manhã era chuvosa, nervosa. Regressando de Barbados, na América Central, onde fora pessoalmente entregar algumas unidades de ônibus, Cláudio Regina, diretor-geral da CAIO, tinha um comunicado importante aos leitores de Transporte Moderno e TechniBus: a Companhia Americana Industrial de Ônibus, a CAIO, requerera concordata, que fora concedida. Tratamos prontamente de ouvir as razões que pudessem justificar situação tão insólita. Melhor, pois, saber do próprio comandante da Companhia, mais adiante, os porquês do baque.

Bacharel em Direito pelas Arcadas do Largo de São Francisco (turma de 57), Regina advogou até 1960, quando ingressou na CAIO. Fundou e presidiu a Fabus (Associação Nacional dos Fabricantes de Carroçarias para Ônibus) e a Rodonal (Associação Nacional das Empresas de Transportes Rodoviários Interestaduais e Internacionais de Passageiros). Fundou e dirigiu a Abrave (Associação Brasileira de Revendedores Autorizados de Veículos). Presidiu o Simefre (Sindicato da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários no Estado de São Paulo). Segue-se vasta lista de empresas que dirigiu – indústrias, companhias de transporte de passageiros por ônibus, uma mineradora, um banco, uma fazenda … Participou de conselhos de administração – Caixa Econômica do Estado de São Paulo e Eletropaulo. Presidiu o paulistano Esporte Clube Pinheiros.

Nesta entrevista exclusiva, em português escorreito e firme, conta por que o gigante balançou. E vaticina: “A CAIO vai se recuperar”. Filho das Arcadas, aprendeu com as trovas acadêmicas que, ao enfrentar a adversidade, “quando se sente bater/ no peito heroica pancada/ deixa-se a folha dobrada/ enquanto se vai morrer”. Fala, Regina!

Transporte Moderno e TechniBus: O senhor convidou as revistas Transporte Moderno e Technibus para esta entrevista porque tem um comunicado importante a fazer. Qual é o recado aos leitores?

Cláudio Regina: O recado é o seguinte: eu acredito que todas as empresas de ônibus do Brasil conhecem profundamente a CAIO e a sua história. Estamos completando 53 anos de existência e podemos dizer que vivemos junto com os proprietários das empresas durante este período todo

Nascemos pequenos e crescemos juntos. E a CAIO sempre foi uma líder de mercado no setor de transporte urbano e sempre cumpriu rigorosamente com as suas obrigações. Infelizmente, um tempo atrás, por problemas vários, a CAIO sofreu uma queda de participação de mercado e, pelo afastamento que os acionistas tiveram da direção da Companhia, ela teve problemas mais sérios. Na verdade, quando nós pressupomos que poderíamos nos recuperar mais rapidamente, aconteceu que o mercado brasileiro (de ônibus), pela primeira vez em tantos anos, caiu, baixou violentamente – e acredito que (a queda) superou (no início deste ano). Pelas estatísticas da Fabus, mais de 50% -, e, com isso, a CAIO se sentiu prejudicada na sua recuperação. Sentindo que deveríamos dar uma satisfação maior aos nossos clientes, uma garantia de que a empresa teria uma continuidade, nós tivemos que solicitar um remédio que é amargo, mas que é legal, da concordata para estabelecer um marco zero, terminar com as pressões que existiam, principalmente acabar com os comentários maldosos que muitos fizeram de que a CAIO estaria paralisada.

Quando a CAIO deu férias coletivas aos seus funcionários, no mesmo momento todas as fábricas de carrocerias estavam agindo da mesma forma. Eu diria, também, que – é oficialmente confirmado – as próprias montadoras-Scania, Volvo, Mercedes – também suspenderam a fabricação, por um período, de chassis para ônibus. A situação ficou grave no transporte coletivo nacional, que ainda não se recuperou, ainda está procurando voltar à normalidade. Finalmente, o Finame resolveu subir (sua participação nos financiamentos de caminhões e ônibus) para 80% (leia nesta edição a reportagem sobre financiamento no transporte), o que anima, um pouco, as vendas.

Transporte Moderno e TechniBus: O senhor está na CAIO desde 1960. Estava no conselho de administração e reassumiu a direção executiva, justamente para poder enfrentar este período da concordata. A CAIO já passou, como diversas empresas, por situações extremamente adversas em tantos anos: mudança de governo, inflação, recessão, Plano Collor (um período a que muitas empresas não sobreviveram). O que o senhor acha que este momento teve de diferente? Para a empresa não conseguir honrar os seus compromissos e se ver numa situação dessas?

Cláudio Regina: Durante pelo menos 34 anos, dos 39 em que estou na empresa, sempre acompanhei a direção da Companhia, e a gente sempre tomava os cuidados necessários no momento em que se acendia a luz vermelha. As crises surgiam, e a gente imediatamente atacava. Atravessamos crises violentas. Mas, por uma decisão de profissionalização, há cerca de 5 anos, ficamos afastados da direção da Companhia. Naturalmente, os tempos mudaram, as necessidades ficaram mais sérias e mais agravadas, e, estando afastados, não pudemos interferir nos destinos da companhia. A estrutura familiar é sempre uma estrutura familiar, de tal forma que, quando nós, em setembro de 1998, decidimos recuperar a Companhia, fizemos um contrato de reestruturação financeira e gestão independente. Por uma série de fatores – e aí eu envolvo também a própria crise russa, que interferiu bem nos destinos da colocação de papéis no mercado -, a situação foi se agravando e ficou muito difícil com a queda violenta nas vendas. Tomamos a decisão de voltar à direção da Companhia, pedimos a concordata e foi-nos dado um prazo de 24 meses com juros de 6% ao ano, que é extremamente favorável. Agora, estamos reiniciando, nos colocando numa posição talvez contrária à desses anos todos: a CAIO sempre ajudou muito as empresas quando elas nasceram e cresceram e agora a CAIO é que solicita às empresas que nos apoiem para nossa recuperação.

Transporte Moderno e TechniBus: E elas estão apoiando?

Cláudio Regina: Todos os nossos fornecedores nos estão dando prazo para pagar. Não cabe a indagação se a CAIO está ou não em concordata. Os empresários de ônibus em geral, com quem continuamos fazendo negócios, não têm manifestado nenhuma dúvida de que a CAIO voltará à normalidade.

Transporte Moderno e TechniBus: A CAIO, recentemente, fez tentativas de parcerias internacionais. Primeiro com. a Mercedes-Benz no México e, mais recentemente, com a espanhola Irizar. Mas essas duas parcerias, por motives d:versos, acabaram não se concretizando a contento. Eu Me pergunto: primeiro, por que elas não perduraram? Segundo, há a intenção da CAIO de perseverar nesse caminho de buscar novos parceiros?

Cláudio Regina: Tenho que fazer uma pequena correção àquilo que você me perguntou.

Transporte Moderno e TechniBus: Pois não.

Cláudio Regina: Essas parcerias nunca tiveram o serviço de participação acionária na CAIO para recompor sua posição anterior. A do México nasceu anos atrás – da mesma forma que a CAIO foi ao México, também foi a Marcopolo e também foi a Busscar. E nós tínhamos uma perspectiva fantástica no México, país que na época era um boom mundial. Mas o México estourou no final de 1994, quando houve o problema que o Brasil enfrentou agora, da desvalorização, e todas as Fábricas que estavam lá já não estão mais.
Foi desfeita a fábrica do México por uma circunstância de que aquele país, devido à desvalorização, não tinha mais condição de importar chassis e carrocerias.
Já o caso da Irizar é diferente. Eles tinham uma carroceria (rodoviária) extraordinariamente bonita e com qualidade, e nós éramos especialistas no urbano. então procuramos associar a carroceria com os chassis e foi feita uma fábrica totalmente à parte da CAIO, com 50% de participação de um e de outro. No momento em que a CAIO teve os seus problemas e caminhava para uma situação mais difícil, entendemos que não devíamos ter o nome da CAIO ligado à Irizar para não prejudicá-los. E fizemos, de comum acordo, a dissociação. Hoje a Irizar é uma firma independente, que tem um futuro muito bonito no Brasil, e a CAIO segue o seu caminho na procura da recuperação em concordata.

Transporte Moderno e TechniBus: E a busca de novas parcerias?

Cláudio Regina: Tivemos, até agora, quatro investidores interessados, dois do país e dois do exterior. Não foram terminadas as negociações, mas elas foram muito prejudicadas, de janeiro para cá, com a crise internacional que se abateu sobre o Brasil. Nós estamos conversando hoje em junho, e se você se lembrar de fevereiro, março, você há de se lembrar que o Brasil estava à beira do abismo: o contrato com: o FMI (Fundo Monetário Internacional) foi feito na base de 16,8% de inflação ao ano; imaginava-se que nós íamos caminhar para uma hiperinflação. Então, imagine que, nessa oportunidade, e que você estava numa situação difícil e buscando um investidor, ele tenha tomado todos os cuidados para que não se visse envolvido na crise que se abateu sobre o Brasil. Hoje a situação já é completamente diferente, já não temos mais o risco da inflação. Hoje se abrem as portas, um pouco mais, para a CAIO na busca de um investidor.

Transporte Moderno e TechniBus: A CAIO, em nenhum momento, deixou de acreditar no negócio carroceria para ônibus. E, apostando, corretamente, no crescimento do segmento de veículos leves, de pequeno porte, micros, a CAIO lançou, no ano passado, dois modelos: o Piccolo e o Piccoline. É um mercado que vem apresentando um crescimento enorme. O senhor acha que essa expansão dos microônibus continua? Os produtos da CAIO vão ocupar um espaço importante?

Cláudio Regina: Os modelos têm agradado bastante o mercado. Essa nossa recuperação também envolve um número bom de Piccolos e Piccolinos. Nesta semana, estamos entregando 20 deles para a Viação ABC, em Santo André (SP). Contamos muito com esses dois produtos para essa recuperação. Também faz parte dos nossos projetos a consolidação do Millenium, que tem sido extraordinariamente bem aceito, um produto de alta qualidade, diferenciado. Como você sabe, tanto o Piccolo, quanto o Piccolino e o Milleninm representam uma resposta à invasão das vans no mercado. Uns para cobrir com carros pequenos, outros para demonstrar, aos poderes concedentes, que o empresário está atento para a evolução do transporte no sentido de uma carroceria que ofereça mais conforto, mais beleza e mais qualidade.

Transporte Moderno e TechniBus: Se o senhor José Massa estivesse no comando da CAIO, ele que fundou a empresa, o senhor acha que ele estaria indo na mesma direção?

Cláudio Regina: Você está se referindo ao meu sogro, fundador da CAIO?

Transporte Moderno e TechniBus: Exatamente.

Regina: O meu sogro sempre fez muita falta para a CAIO desde o seu desaparecimento, porque ele era um homem de extraordinária competência prática, um homem de fábrica, um homem que conhecia profundamente a fábrica. Talvez ele tivesse evitado que nós tivéssemos alguns problemas no lançamento das carrocerias que nos causaram muito prejuízo, inclusive na área da assistência técnica. Então, nós lembramos sempre com muita saudade do fundador, porque ele era um homem absolutamente técnico, absolutamente de fábrica, era um homem que se misturava com os operários. Estamos fazendo o possível para seguir o exemplo dele.

Transporte Moderno e TechniBus: O senhor consegue vislumbrar a CAIO daqui a dez anos? O senhor acredita piamente que a empresa vai superar a concordata e continuar sua caminhada?

Cláudio Regina: Eu acho que o nome e a tradição da CAIO, a presença dela no mercado nacional e internacional, o profundo interesse que os empresários devem ter na continuidade da CAIO, porque têm milhares e milhares de ônibus em sua frota, a necessidade da reposição de peças, os contatos de amizade, durante mais de 40 anos, nos levam a crer que sim. Qualquer indústria nacional hoje não pode absolutamente estar tranquila de que não vá passar por problemas. Eu acredito piamente que nós vamos nos recuperar. Vamos contar com o apoio dos empresários. Estamos contando com o apoio aberto e franco dos nossos fornecedores e de bancos.
Acredito que nós encontraremos uma solução muito mais rápida se nós encontrarmos investidores que queiram somar ao nome e tradição da CAIO.

Transporte Moderno e TechniBus: Então o senhor consegue vislumbrar a CAIO daqui a dez anos?

Cláudio Regina: Daqui a dez anos, a CAIO voltará a ser, no mínimo, o que era há 4 ou 5 anos. Acredito que vamos ter, inclusive, a :tecnologia para ter um produto mais competitivo operacionalmente.

Transporte Moderno e TechniBus: O senhor é bacharel em direito pelo Largo de São Francisco. Ali teve, certamente, muitos ensinamentos importantes sobre o senso de justiça. No que contribui, num momento desses, essa vivência de acadêmico?

Cláudio Regina:Eu me formei no ano de 57 no Largo de São Francisco. Fiz um curso de graduação em Harvard, nos Estados Unidos. Voltei pra cá e montei meu escritório de (Direito) Internacional. Depois, por solicitação do meu sogro, comecei, aos poucos, a me envolver na CAIO. Não sou originariamente um industrial nunca me considerei um industrial. O meu setor é mais próximo à área comercial e administrativa.
Sempre me ajudou muito o fato de o advogado ter mais facilidade de relacionamento e, naturalmente, um espírito de justiça. Isso me ajudou muito na formação do relacionamento que eu tenho com as empresas do país todo. E nas associações. Quem me conhece sabe que eu exerci cargos de grande importância, principalmente na área de ônibus – fui fundador da Abrave, da Rodonal, e fui presidente da Fabus durante vários anos. Sempre lutei por justiça para os empresários, tanto no rodoviário quanto do urbano, porque sempre entendi que eles são pessoas que nunca tiveram o respeito das autoridades. A luta desses empresários foi sempre muito grande dentro do nosso setor. São, em geral, pessoas mais humildes … Já hoje os filhos começam a acompanhar, mas em geral eram pessoas que começaram praticamente do nada. Eles podem responder bem como a CAIO e eles nasceram e cresceram juntos. De tal forma que esse espírito de justiça me ajuda muito, inclusive agora, porque eu acho que, se existe uma justiça, deve ser dado aos empresários o respeito que eles merecem, como deve ser dado à CAIO o respeito que ela merece pelo tempo que pôde colaborar mais diretamente com os empresários.

Transporte Moderno e TechniBus: E os colaboradores internos da CAIO, como o senhor sente que eles estão reagindo?

Cláudio Regina: Toda firma tem um grupo de funcionários que a gente diz que veste a camisa. Nos últimos anos, por causa da própria profissionalização, eu acho que houve um pouco de inchaço na Companhia, que nós estamos procurando agora recuperar. Tenho a certeza absoluta de que nós só conseguiremos a nossa recuperação através desse grupo que no passado nos acompanhou e que nos ajudará na recuperação. São poucas pessoas que vivem realmente a CAIO no dia a dia e elas vão nos ajudar muito na recuperação.


 

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