Fernando Murilo de Lima e Silva – Herói do voo VASP 375

Publicada originalmente no periódico A Bússola n° 211 – Ano 37 – outubro de 1988

Esta entrevista foi concedida pelo comandante Murilo, no dia 02 de outubro, e pelos comissários Ronaldo e Valente, no dia 04 de outubro.
Um dia antes, no sábado 01 de outubro, o Cmte. Murilo recebeu a diretoria do Sindicato Nacional dos Aeronautas para conversar sobre o assunto. Publicamos as declarações dos tripulantes na integra, mesmo considerando o volume do texto, por entendermos que a palavra dos tripulantes envolvidos com essa dura experiência é fundamental para que a categoria tome consciência de que fatos como este não podem se repetir.

A BÚSSOLA: A categoria está ansiosa por saber sobre essa experiência na vida de um aeronauta, que, certamente, contribuirá para que isso jamais ocorra. Por isso, a Bússola vem entrevistá-lo. O que menos queríamos era rememorar alguns fatos neste momento, mas a importância de sua palavra nos obriga a fazê-lo, para história da própria categoria. Quando o senhor tomou conhecimento que o avião estava sendo sequestrado?

MURILO: Depois que eu ouvi um tiro, próximo à cabine de comando, na área dianteira da aeronave; houve um estampido, percebi que era um tiro, pedi para o co-piloto Renhe, que estava de extra: “Olha pelo olho mágico da porta e verifica o que está acontecendo.”
Quando Renhe olhou pelo olho mágico, constatou que tinha um homem forçando a porta de entrada da cabine que estava alocada com lock eletrônico.

A BÚSSOLA: A essa altura o senhor já havia decolado de BHZ, em que situação estava o vôo?

MURILO: Eu estava a 28 mil pés, a 2 minutos de início de descida, quando do primeiro estampido. Depois eu fui saber que ele tinha atirado em um dos meus comissários, que tentando mostrar a porta do banheiro, porque o seqüestrador estava tentando forçar a porta da cabine, como ela estava alocada ele não conseguiu abrir. Este comissário estava com a bandeja na mão, apontou com a cabeça e disse: “Não, meu senhor, a porta do banheiro é ali” e quando fez isso ele mirou na testa do comissário que com o reflexo, graças a Deus, tirou fora o rosto, mas o tiro o pegou, atravessando sua orelha.

A BÚSSOLA: Daí para frente o senhor passou a ter uma relação direta com o sequestrador?

MURILO: Não, após isso ele descarregou por duas vezes o revólver na porta da cabine de comando. Os tiros varavam pela porta, CBU direito, perfuraram o check list do meu manche, várias perfurações na cabine, sendo que um dos tiros pegou na perna do co-piloto Renhe.

Nota da Redação: Quando desta entrevista o Cmte. Murilo estava muito emocionado, por isso evitamos tocar no assunto da morte do co-piloto Vângelis. Entretanto, em outra oportunidade ele contou como foi o episódio: o sequestrador atira na cabine várias vezes. Renhe que estava no Jump Seat retrai o corpo para o canto esquerdo da cabine; Murilo faz o mesmo, para evitarem os tiros. Vângelis, do lado direito, faz o mesmo. Mas a perna de Renhe fica ex- posta e é atingida. Quando o sequestrador entra na cabine, Cmte Murilo e o co-piloto voltam as posições. Pedem várias vezes para que o sequestrador permita que Renhe saia – estava perdendo muito sangue. Após a insistência, o sequestrador concorda. Renhe sai em direção a galley no fundo do avião. O sequestrador, observando-o e mirando sua arma no Cmte. Murilo. Quando Renhe chega no meio da cabine de passageiros, ele vira e dispara o tiro no co-piloto Vângelis, que, segundo Cmte. Murilo; não esboçou nenhuma reação. Vângelis solta a parte superior do corpo sobre o manche.
Segundo o cmte, a única coisa que Vângelis fez, antes da morte, foi pedir: pelo amor de Deus, deixe nosso companheiro sair, ele está sangrando muito, referindo-se ao co-piloto Renhe.

A BÚSSOLA: Nós já o ouvimos quanto ao pior fato dessa situação, portanto a gente vai passar um pouco adiante desse momento. Após essa situação o sequestrador se instalou na porta do galley e da cabine, naquele espaço …

MURILO: Ele ficou virado de costas para galley dianteira e com a porta aberta da cabine de comando de forma que ele pudesse controlar a cabine de comando e os passageiros, ele tinha que ter visão para os passageiros e para a cabine de comando, assim poderia tomar ciência dos meus atos.

A BUSSOLA: Ele disse por que estava sequestrando o avião?

MURILO: Logo a princípio, depois do fato que você ultrapassou, ele pediu que informasse ao CINDACTA que o motivo dele era com o governo, o problema todo dele era com o governo e que eu me dirigisse para Brasília.

A BUSSOLA: Qual foi o primeiro contato que o senhor fez com alguém de fora do avião, para avisar o que estava acontecendo, foi via código?

MURILO: Assim que ele entrou na cabine, com a arma no momento dos tiros, ele estava atirando na cabine de comando, perfurando o painel, perfurando o computador e tudo. Eu estava encostado na janela, completamente encostado na janela, eu e o co-piloto, na outra janela, e o Renhe atrás de mim encostado no jump seat, bem encostado atrás. A partir do momento que ele penetrou na cabine, com a arma, não havia o porquê de estar mais encostado na janela, então sentei na minha cadeira normalmente, levei a mão no PIANO DAS MANETIS, sem que ele percebesse, acionei o código 7700 e apertei o AIDENT.

A BUSSOLA: Quando o senhor pousou, daí pra frente, a relação era somente o Cmte. Murilo e o sequestrador? O senhor tentava negociar o seu pouso o mais rápido possível, como é que se deu essa negociação?

MURILO: Após o pouso?

A BÚSSOLA: Não, após os fatos que se desenvolveram dentro do avião, quando ele ficou parado na cabine com a arma apontada para o senhor?

MURILO: Eu tentei, ele perguntou quanto de petróleo, não sabia que era querosene o combustível do avião, queria saber quanto de petróleo cabia no tanque do avião. Menti, porque pelo pouco que conversei com ele eu vi que se tratava de uma pessoa sem instrução e menti para ele que cabia dois mil litros de petróleo como queria ouvir, e percebi que ele queria saber a quantidade de combustível para ver o tamanho do estrago que ele poderia fazer. Então falei 2 mil litros de combustível, ele falou: Vamos para Brasília E daí foram negativos os pedidos para pousar em BHZ, dizendo que o meu combustível não dava para chegar a Brasília, mas ele disse: Não faz mal. “Vamos assim mesmo, vai dar sim, eu sei que vai dar.”
E fomos para Brasília. E a todo momento eu procurei não passar sobre Brasília, fiquei no Bloqueio do BR de Brasília fazendo órbita pela esquerda porque o modo que eu senti mais ou menos que dificultaria mais a visibilidade dele, com relação à cidade, sobrevoando e tentando negociar o pouso em Brasília. Os caças tinham sido acionados. E por duas vezes vi os caças; embora tivesse instrumento, chovendo muito eu vi os caças cruzarem por mim, não sei se eram Mirages, F-5, sei que por duas vezes eu percebi o cruzamento deles muito próximo da minha aeronave.

A BÚSSOLA: Como era a comunicação do senhor?

MURILO: Os pedidos que ele fazia, eu agradeço inclusive a cooperação do controle que percebeu, quais eram as respostas que queria que eles me dessem e davam as respostas à altura do que eu estava querendo, como: “Goiânia fechada”, “Anápoles fechado”, com respeito a minha autonomia, que a minha autonomia não seria suficiente para chegar nos lugares que ele estava pedindo, eles cooperaram bastante.

A BÚSSOLA: A relação controle/ vôo foi boa?

MURILO: Foi muito boa. Eles fizeram realmente o que foi possível. Não estou puxando sardinha para o lado de ninguém, estou falando simplesmente a verdade.

A BUSSOLA: Quando o governo entrou na história? O que está passando é que na realidade quem fez todo o processo de negociação foi o Comte. Murilo, e o governo nada mais fez do que atrapalhar. De certa maneira é isso que tem sido colocado pela imprensa.

MURILO: O que eu vejo de verdade é o seguinte: como foi dito, ontem pelo Cmte. Lavorato, o não reabastecimento, as medidas tomadas com relação ao sequestro ainda são da época de 70 realmente. Sem negociação; sem nada disso, acima de qualquer coisa. Agora até certo ponto, até concordo: O estrago pode ser menor, tudo bem, mas passageiros, tripulantes, eles têm que ter mais cuidado com essas vidas. O fato de impedir o sequestro, eu acho que existem outros meios além da violência total sem medir consequências, acho que existem outros meios. Eu tinha conseguido, durante 6 horas que fiquei no solo com o sequestrador, perceber e entender o momento psicológico, inclusive do sequestrador, já estava em pleno entendimento com ele, eu já o tinha inclusive sob controle, de reações e tudo.

A BÚSSOLA: Como foi o episódio da manobra que o senhor fez para pousar em Goiânia?

MURILO: Após todos os acontecimentos, negativas de ir para um lugar, ir para outro, eu estava com o combustível esgotado. Ele queria que eu sobrevoasse Goiânia e eu em todos os momentos, não quis sobrevoar. Quando cheguei em cima da pista de Goiânia, estava a dez mil pés e com 200 libras de combustível, ele pediu que eu ficasse em órbita, e eu disse que assim o motor ia apagar, os motores iam apagar e morreríamos todos. E permaneci rodando fora da cidade, e ele ” pode passar a cabeceira 32″; ele pedindo que queria ver a cidade. Aí eu inclinei a asa um pouco para o lado esquerdo, como eu estava fora da cidade falei para ele: a cidade está aqui embaixo, tentando enganá-lo. Ele: “Eu não estou vendo”. Eu: você não está vendo por causa do nevoeiro, tem névoa seca, o controle já tinha dito, que estava fechado, então, por isso, não está dando para ver, mas estamos em cima de Goiânia. Ele: você só vai baixar quando eu quiser, quando eu mandar. Eu: ta ok. Nesse momento acenderam todas as luzes de combustível, eu estava entre a morte e não tinha escolha. Avisei a ele o procedimento, os acontecimentos que viriam a seguir, que é para eu não deixa-lo com arma na mão, não sei o que poderia acontecer, eu sozinho dentro da cabine, se me matasse, pior ainda. Mesmo sem combustível poderia tentar um pouso forçado, mesmo fora da pista, que a todo tempo eu olhava para ver em que posição ela estava.
Eu dizia a ele que ia apagar primeiro o motor esquerdo, mostrei-lhe o indicador de combustível, disse que estava para apagar a qualquer momento. Primeiro o esquerdo, depois o direito, para que ele não se assustasse com o que estava acontecendo, para que se mantivesse com calma porque ele estava armado.
Quando acabei de falar isso com ele, eu levei a mão no painel do piloto automático sem que ele percebesse; olhei para fora, pela janela e foi rodado o controle de velocidade ao mínimo possível que seria 110 NORTE. Quando fiz isso, tirei a mão do painel, o acelerador veio parar trás, que era reduzir a velocidade para acompanhar o que foi determinado. Naturalmente eu tinha esquecido de ligar o automotor, quando a velocidade chegou por volta de 160 nós. O acelerador entrou de novo para manter a velocidade sem flap. O acelerador entrou e estavam mantidos os 160 Nos. Eu olhei para fora de novo, que eu tinha percebido nesse momento, que tinha esquecido o auto throttle ligado. Botei a mão no painel automático de novo, desliguei o autothrotle, botei a mão em cima dos aceleradores, suavemente fui desacelerando o motor esquerdo, suavemente, e avisei a ele: olha, parou o motor esquerdo. Quando desacelerei o motor esquerdo, a asa esquerda tende a baixar, como estava a dez pés, eu espetei o nariz, para ganhar velocidade do motor direito, que estava operando. Acelerei o motor direito, a velocidade, não me lembro ao certo a quanto estava, a 290 / 300 nós. Já que eu perdi, eu parei de a minha manobra 3500/4000 pés. Eu acelerei, aproveitei que a asa esquerda estava inclinada, quando chegou nessa velocidade eu puxei o TUNNEAU, queria que ele caísse de cabeça para baixo, quebrasse o pescoço, ou perdesse a arma, alguma coisa parecida. Isso foi uma manobra que ocorreu no momento com Tunneau, porque queria vê-lo de cabeça para baixo, caindo de cabeça no chão. Mas eu não tive sorte nesse momento, que quando ele caiu logo conseguiu achar a arma de volta e apoiou na cadeira do Jump seat, apontando pra minha cabeça, a arma de novo. Aproveitei que ele estava abaixado, e com a arma apontada para minha cabeça, com medo nesse momento, isso porque quando Betreeu em baixo, e a minha velocidade, após a saída do Tunneau reduzi a velocidade bastante para saber a posição dele, como ele eslava para poder pegar a arma ou ver se ele tinha quebrado o pescoço, alguma coisa. Quando recuperei eu vi que ele estava pegando a arma de novo, apontando-a para minha cabeça. Aproveitei o olhar de espanto dele, a velocidade estava baixa, comandei o trem de pouso e nessa altura já estava na perna com vento da 32, pela direita, comandei o trem baixo, fui comandando Flap e como eu estava uma perna com vento muito próximo a pista, curva de grande POUSE, parando no meio da pista, ai ele me ordenou que fosse até a cabeceira, e chegando lá, para estacionar, parei no meio da pista, dei motor para ir até onde ele queria que eu fosse, mas os motores apagavam, por falta de combustível.

A BÚSSOLA: Essa operação lembra quanto tempo foi isso? Acha que isso demorou o quê?

MURILO: 40 segundos / 50 segundos, não creio que tenha sido nem um minuto.

A BUSSOLA: Da manobra do avião ao pouso?

MURILO: Da virada do avião ao pouso, talvez 1 min e15 seg, ou 1 min e meio.

A BÚSSOLA: Aí estamos no chão. No chão o senhor retoma as negociações com o sequestrador. Como foi daí para a frente?

MURILO: Primeiro pedido dele foi petróleo. Mande abastecer o avião, quero petróleo, quero tanques todos cheios. A torre pediu que eu aguardasse que ia ser providenciado. Esse providenciado, foi providenciado, providenciado, providenciado … e a todo momento o pedido dele: é “já estou ficando nervoso, o tempo está esgotando, fala para eles virem rápido, daqui pra frente eu não sei o que vai acontecer, eu quero petróleo, essas coisas. Ai começavam as movimentações de polícia militar, polícia do Exército, que foi o que mais atrapalhou. Um despreparo total dos policiais do Exército.

A BÚSSOLA: Pela televisão, nós acompanhávamos, e me parece que eles entraram pela frente do avião, na hora que o avião estava parado no chão teve um pelotão que veio por uma parte que o próprio sequestrador via. Isso o próprio Cmte. Lavorato falou: é um absurdo, os caras estão entrando por um lado que quem está lá dentro está vendo. Isso foi um fato, era o Exército?

MURILO: Perfeitamente, a todo momento eu informava a torre de Goiânia o seguinte: o passageiro não quer nenhum policial armado na frente do avião, queria deixar entender, que a operação por trás poderia ser completa, tranquila. O único angulo que ele tinha era a frente, então a todo momento eu falava com a torre: o passageiro não quer ninguém armado na frente do avião, passando pela frente do avião, e os soldados do Exército com fuzil, mosquetão, não sei o que era. Armados em pé, passando pela frente; como se dirigissem para a lateral, ou calda do avião, mostrando despreparo total. Mesmo após terem parado de passar em pé, com os mosquetões e tudo, os que tentavam rastejar, rastejavam com a ponta da arma aparecendo e a cabeça em pé, eu não sei que instrução é essa que é a cabeça em pé e o mosquetão aparecendo. Ele percebia tudo, ele estava com ângulo de visão, da minha cabine e dos passageiros, esse movimento poderia ser feito pela calda do avião.

A BÚSSOLA: Como que, diante de um quadro desse, ele praticamente assistiu toda essa cena, como ele resolveu descer do avião, abriu a porta. Como ele aceitou isso?

MURILO: Eu perguntei primeiro a idade dele, depois perguntei quando ele tinha nascido. Quando ele falou que era 20/09, eu falei: você nasceu um dia depois de mim, eu nasci no dia 19. Tentei ter um contato mais humano com ele, que é para trazê-lo, a transformá-lo mais um pouco em pessoa humana, com essas perguntas sobre família, se ele tinha algum problema, se eu podia ajudá-lo em alguma coisa, fui tentando transformá-lo num ser humano, e eu já estava conseguindo, já tinha conseguido, inclusive teve um momento que eu consegui fazê-lo chorar, porque nas negociações que eu pedia para ele deixar, permitir tirar o co-piloto da cabine, eu falei que essa pessoa que ele tinha matado, tinha uma filha de oito anos, era uma pessoa maravilhosa, amigo meu há muitos anos. Nesse momento ele chegou até a chorar, eu consegui com isso que ele mandasse tirar. Consegui com isso que os dois comissários saíssem juntos. O Renhe, que era o co-piloto que estava de extra, também. Só aí foram três pessoas além do morto, que eu tinha conseguido tirar do avião. Ele chegou num momento inclusive, já estava adquirindo confiança em mim, estava sentado em cima da geladeira, puxou a gaveta da mesma com a porta da cabine entreaberta, naturalmente ele estava com medo de levar um tiro pelo vidro dianteiro. Mal sabia ele que a bala não penetraria ali, mas deixei que ele pensasse assim – então de forma que ele pudesse me ver e ver os passageiros. Eu cheguei a receber uma lata de Coca-Cola gelada dele, ele botou a arma por sobre a Galley dianteira, pegou uma lata de Coca-Cola gelada e me entregou.

A BÚSSOLA: Então as condições para que o senhor acabasse o seqüestro estavam praticamente definidas?

MURILO: Todas.

A BÚSSOLA: E como isso começou a mudar, foi na hora da saída?

MURILO: O quadro começou a mudar quando tentei colocá-lo dentro do Bandeirante. A princípio ele tinha pedido um caça.

A BUSSOLA: Desceu o senhor na frente, ele …

MURILO: Desceram eu, ele, e mais dois comissários. Ele abraçado o tempo todo em mim, com a arma na mão direita. A comissária do lado dele e o outro comissário dando cobertura por trás, mas com a mão nele que era para ele sentir a presença dos três.

A BÚSSOLA: Até aí não tinha nada. Estava perfeito?

MURILO: Estava perfeito, ele tinha me assegurado que nada ia acontecer comigo, nem com os passageiros. Ele estava completamente, como se diz dominado, embora estivesse com a arma na mão. Na hora de colocá-lo no Bandeirante, o Bandeirante já veio sem escada e sem a porta traseira. Até aí tudo bem, compreendo. No momento em que ele tentou subir, apoiou os dois cotovelos no chão do Bandeirante para forçar a subida, mas ele é meio grande, atarracado, não agüentou o peso, e eu fui tentar ajudá-lo, pegando pela cintura, fiz uma alavanca, quer dizer, botei meu corpo pra frente para poder ter maior apoio e segurando pela cintura, mas quando enfiei meu corpo para frente, minha cabeça foi para dentro do Bandeirante e nisso levei um tiro. O tiro passou raspando minha orelha. Quando o tiro partiu de dentro do Bandeirante raspando minha orelha, eu o larguei. Larguei ele no chão e sai correndo dando passos rápidos para trás, mas olhando em sentido dele, ele pegou a arma, apontando para o meu peito.

A BUSSOLA: Ele apontou para o peito como se fosse lhe matar?

MURILO: Me matar, porque a partir daquele momento a revolta dele virou-se contra mim.

A BÚSSOLA: A relação de confiança mudou?

MURILO: Claro. A relação de confiança inverteu-se totalmente. Então ele apontou a arma para meu peito e eu pulei na hora, só vi a arma apontada para mim e pulei. Quando eu pulei, foi justamente a hora que ele apertou o gatilho, aí pegou na minha coxa o tiro. Eu saí correndo, virei as costas para ele e sai correndo em zigue-zague, e ele descarregando o revólver em cima de mim, a todo momento. Tiro! tiro! tiro! tiro! tiro! Quando consegui passar por trás da escada traseira onde eu desci com ele, imaginei que já estivesse fora da linha de tiro dele, ou então a escada me protegeria. Subi a escada correndo e fechei a porta do avião, que eu tinha percebido que meus dois comissários que estavam comigo, teriam corrido para a grama. Subi a escada do avião e fechei a porta que era para ele não voltar para dentro do avião e não continuar de novo à estaca zero, e com consêquencias piores. Mais tarde, no outro dia no hospital fui saber que mesmo meus dois comissários, receberam tiros: eles deitados na grama; confusão geral. Não sabiam quem era o seqüestrador, quem não era. Os dois comissários deitados pedindo socorro porque estavam escutando estampidos por cima, estampidos o tempo todo, e eles pedindo socorro, até que graças a Deus, identificaram que eram os comissários e pararam.

A BÚSSOLA: Não existia preocupação nenhuma com a vida da tripulação, parece que neste momento estavam atirando aleatoriamente?

MURILO: Pelo que indica, perderam o controle, qualquer alvo móvel nas proximidades e me parece que mesmo que fossem todos, que o seqüestrador estaria no meio, estaria tudo acabado.

A BÚSSOLA: O aviador, numa situação como esta, ele está treinado para enfrentá-la? Por exemplo, o senhor, pela sua formação, sua experiência de vida, acabou lendo um comportamento que evitasse que essa coisa se desdobrasse. Os tripulantes no geral, será que eles estão submetidos ao instinto, existe algum treinamento para isso?

MURILO: Negativo. Nós estamos completamente despreparados para uma atitude de sequestro. A única instrução que nos é dada, é colocar o transponder 7700 e rezar. Porque se o seqüestrador, conforme foi o primeiro pensamento que veio à minha cabeça, que ele queria jogar o avião sobre Brasília, não determinou lugar, ele talvez até pensasse que eu não estava sabendo da sua intenção, do que ele estava desejando saber, mas eu tinha certeza ao mesmo tempo, talvez por psicologia, aviso de fora, alguma coisa assim. Sabia que ele queria jogar o avião sobre Brasília, não sei em que lugar. Você só pode perceber o seguinte: acionar o código transponder e entregar-se a Deus, porque se em algum momento, inclusive, passou pela minha cabeça, eu tivesse passado por cima de Brasília, talvez fosse até abatido no meio do caminho por um dos caças.

A BÚSSOLA: Esse episódio dos caças, nós fomos informados dentro do Sindicato, por um jornalista, mesmo que antes de começarem os caças a perseguir o avião que a filosofia teria sido a seguinte: parar com o seqüestro a qualquer preço. O senhor sentiu no ar, ou em terra, em algum momento que eles estavam decididos e que em última instância abateriam o avião?

MURILO: Quando eu vi duas vezes, eu percebi duas vezes os caças passando por mim, como estava instrumento, chovendo naquele momento, eu consegui evitar o sobrevôo de Brasília, que se tivesse céu claro, por certo seria muito mais difícil porque ele avistaria a cidade, mesmo com as manobras que eu fiz, certamente não seria por todo tempo que eu conseguiria tapeá-lo. Mas como estava chovendo, estava instrumento, isso me facilitou muito a vida, mas eu, a partir do momento que percebi os caças cruzando, comecei a ficar preocupado pela minha sobrevivência e a dos passageiros também.

A BUSSOLA: Um episódio que está sendo muito comentado, parece que tinha avarias no avião na hora do pouso. A que o senhor atribui essa avaria?

MURILO: Após a manobra de Goiânia, num relance, na saída do Tunneau, vi um pássaro preto, urubu, não sei o que era. Friamente pensando depois, eu já não sei mais, se eu posso ter pego urubu ou se pode, inclusive, ter sido um desses caças que passou, esbarrou …

A BÚSSOLA: O senhor acha que pode ter sido um caça?

MURILO: Pode, pode. Porque eu já não sei. Uma coisa eu tenho certeza absoluta, e convoco testemunha de passageiros e do próprio co-piloto Renhe, que estava comigo de extra, que meu pouso em Goiânia foi suave, e foi o momento que eu me aproximei do solo, foi em Goiânia, eu esbarrei nada, em nada.

A BÚSSOLA: Como foi sua relação com os passageiros? Os passageiros contribuíram?

MURILO: Os passageiros me ajudaram demais. Permaneceram sentados, cooperaram, mantiveram-se frios, embora com tiros e tudo, mas permaneceram no lugar, me ajudaram demais.

A BÚSSOLA: Não houve situação de desespero no avião?

MURILO: Houve um início de pânico que eu escutei. Após o meu TUNNEAU, escutei, provavelmente foi um dos comissários pedindo que eles sentassem. Porque quando terminei o TUNNEAU, nem sabiam que estavam de cabeça para baixo, depois eles prestaram declarações que nem sentiram que ficaram de cabeça para baixo. Após o TUNNEAU, escutei um dos comissários, talvez, só pode ter sido comissário, porque passageiro não iria saber falar, pedindo para que eles sentassem e eles praticamente obedeceram. E eu, logo após fiz o pouso.

A BÚSSOLA: O senhor voa na VASP há quanto tempo?

MURILO: Mais de 16 anos, não me lembro no momento, 16/17 anos.

A BUSSOLA: Quantos anos de carreira o senhor tem?

MURILO: Tenho 21 anos, comecei a voar em 1967.

A BÚSSOLA: Na VASP, a maior parte de sua vida, em outras companhias, por quais o senhor passou?

MURILO: Comecei a voar na Força Aérea, sai da Força Aérea, fui voar em Táxi Aéreo em MT, Oro-Táxi Aéreo, saí, fui voar na RIO-TAXI AÉREO, depois para TAXI AÉREO CASAR AGUIAR-TACA, depois, TABA – SALVADOR, após, fui para AEROFOTO DA CRUZEIRO DO SUL, voando DC-3, e depois VASP.

A BÚSSOLA: Nesse episódio, como foi sua relação com a VASP? Qual foi seu primeiro contato com a VASP?

MURILO: Meu primeiro contato com a VASP foi no hospital, depois de ser atendido pelo médico, ter feito RX e tudo. Enquanto eu aguardava a preparação do apartamento que

eu ia ficar, eu recebi a visita do Cmte. ROCCO e pelo Franco da Rocha – Presidente da VASP. Foram fazer uma visita e colocar à minha disposição o que fosse necessário.

A BUSSOLA: O Plano de Segurança Nacional dos Aeroportos me parece que está falido, se é que se pode falar que existe um plano. Teve o problema do sequestro, praticamente foi encontrada uma bomba no Electra. O que é possível para o senhor, apesar de ser difícil falar sobre esse assunto no momento. Mas pelo menos, o que o senhor imagina que pode ser feito nesse campo?

MURILO: Imagino o seguinte: detector de metais, tanto para bagagem como para pessoa embarcando. Eu não creio que seja tão caro assim para ser posto nestes aeroportos. É o mínimo que seria possível fazer. Este negócio de atrasar embarque por ter que passar por detector de metais e tudo. Nos EUA, outros países, em todos os lugares do mundo isso é feito. O passageiro vai passando normalmente como se fosse no embarque. Passou por ali acabou; não toma tempo para embarque, não atrasa o embarque. Eu acho que é desleixo.

A BUSSOLA: Acha possível elencar algumas medidas simples, e mesmo com as medidas simples, acha que evitaria essa situação? Porque pelo jeito qualquer pessoa hoje pode subir armada no avião, e não tem como detectar.

MURILO: Tranquilamente. O meu sequestrador por exemplo, estava com 50 balas dentro do bolso e um revólver. Imagina com 50 balas, o estrago que ele poderia fazer ?! Eu queria saber se com detector de metais ele teria conseguido entrar? Não. Somente se furasse o bloqueio.

A BÚSSOLA: É a primeira vez que o senhor enfrenta experiência desse tipo na vida?

MURILO: Graças a Deus foi. E espero que seja a última.

A BÚSSOLA: No caso da categoria, o que o senhor diria para os aeronautas no geral sobre esse episódio?

MURILO: Primeiro lugar: eu fiz um pedido ao engenheiro chefe da manutenção da VASP: o lack mecânico, da cabine da porta de comando, o meu avião não tem. O 737 não tem lock mecânico, se tivesse ele poderia, inclusive, não sei, 50 balas é muita coisa, é um arsenal. Mas comigo escondido atrás do painel de togo, meu co-piloto, escondido atrás do painel de togo e o outro também, evitaria bastante com o lock mecânico, teria ajudado muito. O primeiro pedido que eu faço aos companheiros aeronautas é que tentem junto à companhia colocar lock mecânico na porta da cabine de comando que ajudaria bastante e em segundo lugar, enquanto permanecerem essas condições, é sorte.

A BÚSSOLA: O problema maior é o do governo?

MURILO: O problema é todo do governo, porque nós, nosso treinamento, o piloto é muito bem preparado, de um modo geral, o brasileiro é conceituado. Voa bem, pessoa traqüila, bons aviadores, então fora disso, o problema é do governo, é externo.

A BÚSSOLA: E um dado interessante, porque na realidade o piloto brasileiro é competente para poder transportar coisas, pessoas, mas não é a pessoa competente para poder se defender de uma situação dessa. Nesse campo, no treinamento pessoal, deveria ter uma operação profunda prevendo ele se esbarrar com uma situação de sequestro?

MURILO: Eu acho que deveria ser mais respeitado. Primeira coisa: nós deveríamos deixar de ser apenas número, nós deveríamos ser ouvidos. Com a nossa participação, se fôssemos atendidos e respeitados, eu tenho certeza que isso nunca mais iria acontecer. Digamos que temos que ter mais respeito profissional, por parte das autoridades, por parte dos diretores, de donos de companhias, o aeronauta podia ser respeitado. Porque todos os aeronautas, tenho certeza, são pessoas conscientes, capazes e merecem todo crédito.

A BÚSSOLA: O senhor tem mais alguma coisa a acrescentar sobre toda essa coisa do sequestro?

MURILO: Não acreditem, não acreditem sobre forma alguma em promessas externas, que está tudo bem, não vai haver tiros. Nós estamos cientes de tudo, não tenham certeza disso. Eu, quando desci, entreguei minha alma a Deus, porque eu sabia do que iria acontecer, eu já estava prevenido.

A BUSSOLA: O senhor voaria hoje, após esse episódio?

MURILO: Tranqüilamente, seria capaz de entrar na cabine do 737-300, acionar os motores, decolar, fazer um võo normal, tranquilo, sem problema nenhum de pilotagem, só que sem os passageiros. Por quê? Hoje eu tenho certeza absoluta que todos os meus companheiros que estão voando, está passando pela cabeça deles que os passageiros que estão lá atrás, eles não vão saber, quem está armado, quem não está. Se tem gente armada a bordo, se não tem. Porque do jeito que está, eu posso te provar que no Galeão, eu com uma calça azul e uma camisa branca entro no Galeão, a hora que eu quiser ou qualquer outra pessoa, desde que esteja com uma calça azul e uma camisa branca, entra tranqüilamente.

A BUSSOLA: O aeronauta brasileiro sabe voar, agora, pelo o que eu entendi da sua abordagem, o governo, nem o que lhe cabe, ele está sabendo fazer, foi isso mesmo?

MURILO: Foi isso mesmo. A nossa responsabilidade começa quando fecha a porta do avião. Até o fechamento da porta, o problema é único e exclusivamente das autoridades. A nossa parte, com a porta fechada, o governo pode ficar tranquilo que nós saberemos levar.

A BÚSSOLA: Sobre o comportamento dos comissários?

MURILO: O comportamento dos comissários foi maravilhoso, inclusive, no momento em que eu consegui negociar com o seqüestrador que ele tirasse o morto de dentro da cabine, e que os feridos saíssem também, um dos comissários, o ferido e o outro que ajudaram a tirar o Evangelista da cabine. Eu a todo momento fazendo sinal de dentro da cabine para eles irem embora, pois eles queriam voltar, para não nos abandonar dentro do avião. Um sentimento tão grande de união que eles queriam voltar para dentro do avião, permanecer sob aquele terrorismo todo, só para não nos abandonar. E eu fazendo sinal de dentro da cabine para eles irem embora.

A BÚSSOLA: O senhor acha que o comissário – existe uma idéia de que o comissário é um profissional somente para servir o passageiro, tipo garçom à bordo – tem uma outra tarefa dentro do avião?

MURILO: Nesse momento eu tenho certeza de que quem fala isso ignora, completamente, o sentimento e o sentido de ser tripulante.


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