Lars Jansen – O transporte marítimo sempre foi cíclico e o futuro será ainda mais dinâmico

 

Publicada originalmente no Anuário do Transporte de Carga e Logística – ano 30 – 2025

 

Em entrevista exclusiva, o CEO da Vespucci Maritime e especialista internacional em transporte marítimo, Lars Jansen, analisa volatilidade do frete, impactos da crise no Mar Vermelho e da reconfiguração das cadeias de produção e distribuição, pressões por descarbonização e perspectivas para o comércio global e o Brasil.

Jansen participou este ano do Intermodal Summit, um dos principais eventos de conteúdo do setor de logística multimodal de cargas e comércio exterior realizado anualmente durante a Intermodal South America. À frente da Vespucci Maritime, Jansen consolidou a empresa como uma consultoria reconhecida pela expertise em inteligência de mercado para o transporte marítimo.

A empresa apoia embarcadores, armadores e operadores na tomada de decisões estratégicas, ajudando as partes interessadas do setor a compreender quais forças estão em jogo. Confira a íntegra da entrevista.

Anuário do Transporte de Cargas e Logística: Nos últimos anos, o setor de transporte marítimo enfrentou grandes rupturas, da pandemia à crise logística global. Como o senhor avalia o atual estado do transporte marítimo mundial e quais mudanças estruturais vieram para ficar?

Lars Jansen: Fundamentalmente, a estrutura permanece a mesma. A crise no Mar Vermelho está, atualmente, absorvendo uma quantidade significativa da capacidade de navios devido às longas distâncias de navegação contornando a África. Caso a situação seja resolvida, essa capacidade será devolvida ao mercado e, por um período temporário, o mercado terá um excesso significativo de capacidade. Trata-se, essencialmente, de uma desaceleração cíclica normal – o mercado sempre foi cíclico.

ATCL: As tarifas de frete têm sido altamente voláteis desde 2020. Quais são as principais tendências para os custos do transporte marítimo internacional nos próximos meses e anos? Estamos vendo sinais de estabilização?

Lars Jansen: Não, não estamos vendo sinais de estabilização. A guerra comercial entre os EUA e a China e a crise no Mar Vermelho são ambos fatores que geram extrema instabilidade nos padrões globais de oferta e demanda e, consequentemente, nas tarifas de frete.

ATCL: O setor enfrenta uma pressão crescente para reduzir as emissões de

CO². Quais são as medidas mais concretas que estão sendo implementadas globalmente para descarbonizar o transporte marítimo e quais desafios permanecem para armadores e operadores?

Lars Jansen: As medidas mais concretas são o aumento dos pedidos de navios movidos a GNL (gás natural liquefeito) ou metanol verde. Isso estabelece o cenário para reduções futuras, mas está longe de ser certo que essas ações serão suficientes para atingir a meta final da IMO de descarbonização por volta de 2050. Dito isso, o setor de transporte de contêineres está claramente avançando mais rápido nesse aspecto do que, por exemplo, os segmentos de petroleiros e graneleiros.

ATCL: Metanol verde, hidrogênio, amônia e biocombustíveis estão surgindo como opções para navios mais sustentáveis. Quais tecnologias têm maior potencial para adoção em larga escala e em qual prazo?

Lars Jansen: É muito difícil dizer neste momento – todas têm prós e contras.

Podemos muito bem ver um desenvolvimento em que múltiplos combustíveis coexistam, e não necessariamente apenas um único combustível. Algo semelhante ao que acontece com os automóveis, em que gasolina e diesel coexistem como combustíveis diferentes.

ATCL: Conflitos geopolíticos, ataques a navios e congestionamentos portuários aumentaram as preocupações com a segurança das rotas marítimas. Como o setor está lidando com esses riscos e quais tendências estão surgindo em termos de rotas alternativas?

Lars Jansen: Não há muitas alternativas. Os navios estão contornando a África devido aos problemas no Mar Vermelho. Alguns apontam para opções terrestres, por exemplo, através da Arábia Saudita, ou por via terrestre da China até a Europa. Mas a realidade é que essas opções terrestres só conseguirão transportar uma pequena fração do volume físico total.

ATCL: A transformação digital é vista como fundamental para melhorar a eficiência e reduzir custos. Quais inovações em análise de dados, rastreamento e automação têm maior impacto nas operações marítimas?

Lars Jansen: Atualmente, não destacaria nada em particular, já que a maioria do que vemos são melhorias incrementais. O único elemento que apontaria, e que provavelmente veremos nos próximos anos, é a adoção integral do conhecimento de embarque eletrônico, eliminando custos massivos associados ao fluxo de documentos físicos.

ATCL: Com mudanças nas cadeias de suprimentos e políticas que promovem o reshoring e o nearshoring, qual será o papel do transporte marítimo na reconfiguração do comércio global? Essa mudança pode alterar a dinâmica dos grandes hubs portuários?

Lars Jansen: O transporte marítimo está em uma posição positiva, pois consegue se adaptar relativamente bem às mudanças nos fluxos comerciais – basta deslocar os navios para onde a carga estiver. As políticas de reshoring e nearshoring provavelmente não acontecerão em larga escala.

ATCL: Como o senhor avalia a posição do Brasil no comércio marítimo global?

Quais oportunidades e desafios o país enfrenta para melhorar sua competitividade e eficiência logística?

Lars Jansen: O desafio é a capacidade portuária, tanto em termos de atender à crescente demanda quanto na capacidade de receber e operar navios porta-contêineres maiores e em maior número.

ATCL: Quais tendências ou mudanças estratégicas o senhor acredita que moldarão o transporte marítimo nos próximos cinco a 10 anos, globalmente e na América Latina?

Lars Jansen: Uma mudança nos padrões do comércio global, cada vez mais focada em fontes também no Sudeste Asiático e, especialmente, no subcontinente indiano.

 

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