Murilo Gomes Serpa – A logística entra nos trilhos
Publicada originalmente na Revista Tecnologística – ano III – nº 23 – outubro 1997
Há um ano, o consórcio MRS – de Juiz de Fora, MG – ganhou o direito de exploração de um dos mais atrativos trechos ferroviários brasileiros – a Malha Sudeste, interligando Belo Horizonte, Rio e São Paulo. E já começa a pensar grande. Investindo pesado em equipamentos, informática, treinamento e um sistema logístico, o consórcio está mudando a antiga mentalidade ferroviária para atrair novos nichos de mercado. Tudo isso para, no futuro, oferecer serviços logísticos completos aos clientes. É o que nos conta nesta entrevista o Diretor Comercial da nova empresa, Murilo Gomes Serpa.
Tecnologística – Quando foi obtida a concessão para exploração desta malha?
Serpa – A concessão foi em setembro de 1996, e a MRS assumiu a operação da Malha Sudeste no dia 1º de dezembro do mesmo ano. Temos o direito de exploração por 30 anos, extensíveis por mais 30.
Tecnologística – Por quantas empresas é formado o consórcio?
Serpa – Os principais acionistas são a ABS Empreendimentos Imobiliários, a Celato, Cosipa, CSN, Ferteco, Funca, Gerdau, MBR, Ultrafértil e Usiminas.
Tecnologística – Como está organizada a nova administração?
Serpa – A administração é toda profissional, ou seja, não há na MRS funcionários de nenhuma das empresas acionistas. Existe um acordo para que se tenha um controle compartilhado, para que esta malha seja antes de mais nada um centro gerador de lucro, com autonomia de gestão. Temos hoje 3.990 funcionários e toda a direção é oriunda da ferrovia. Nosso presidente, Mauro Knudsen, é um ferroviário com 40 anos de experiência.
Eu estou há 25 anos na área, trabalhei na Ferrovia Vitória-Minas, sendo responsável pela área de transporte comercial e pela implantação da Estrada de Ferro Carajás, da Vale do Rio Doce. E assim ocorre com nossos diretores, todos do ramo ferroviário.
Tecnologística – Que áreas, exatamente, abrange o trecho explorado por vocês?
Serpa – A sigla MRS significa Minas-Rio-São Paulo. Então é exatamente esta nossa linha, a chamada Malha Sudeste, que compreende as antigas SR 3 e SR 4 (ver mapa na página 08). Através dela, temos interligações para o Nordeste, para a região Centro-Oeste e Oeste de Minas; nos interligamos com a FEPA-SA, FCA e EFVM, e chegamos até os portos de Santos, Rio de Janeiro e Sepetiba. É um trecho com enorme potencial a explorar, ligando regiões nevrálgicas do Brasil.
Tecnologística – Em termos de melhorias e modernização, seja da linha, equipamentos e sistemas de informação, o que vocês pretendem implementar?
Serpa – Praticamente tudo. Nós pegamos uma malha que vinha recebendo há muitos anos níveis baixíssimos de investimento. Ela apresentava deterioração em todos os níveis: locomotivas, vagões, linha, trilhos e apoio de informática. Nós já estamos num processo de melhoria, que é gradativa em parte porque os investimentos são muito pesados, e nós precisamos estar gerando receitas para cobri-los; e em parte porque a indústria nacional não está preparada para a nova demanda, então estamos tendo que importar material, como trilhos, por exemplo.
Estamos investindo na melhoria da via permanente, para podermos ter um rendimento melhor. Ao todo, estamos investindo em torno de 100 milhões de reais.

Tecnologística – E quanto à parte de informática e de sistemas de informação?
Serpa – Estamos implantando uma nova mentalidade. Para se ter uma idéia, o equipamento mais “moderno” que encontramos ao assumir a malha foi um PC 386! Estamos implantando um sistema holandês de controle de contabilidade, orçamento e custos, chamado Baan, que irá nos permitir um controle mais apurado de nossos gastos e custos, seja de manutenção, de administração ou pessoal, entre outros. Estamos desenvolvendo também o SISLOG, um sistema de logística para a ferrovia que irá fazer o rastreamento de todos os trens e, conseqüentemente, das cargas que viajam neles, ao longo de toda nossa linha. Já estamos em fase de testes com o sistema GPS (Global Positioning System), de rastreamento por satélite, que dá exatamente a latitude e longitude do trem, em qualquer local.
Tecnologística – Quando vocês pretendem ter toda a frota rastreada?
Serpa – Até o final do próximo ano queremos ter o GPS em toda a frota. Vamos rastrear só a locomotiva, os vagões estarão atrelados a elas e, portanto, serão localizados também. E nós iremos, é claro, disponibilizar estas informações para o cliente. Ele poderá acessá-las pela Internet através de uma senha, vendo, por exemplo, que sua carga está no trem “X”, a que horas ele partiu, a que horas irá chegar em cada ponto, quantos vagões possui, etc. A fase de testes começa no início do próximo ano e assim que estiver em funcionamento vamos disponibilizar isto para o mercado.
Tecnologística – Qual a frota atual da Malha?
Serpa – Bem, recebemos da Rede Ferroviária Federal quase 400 locomotivas, mas a maioria em estado muito ruim. Hoje, nós dispomos efetivamente de 250 locomotivas e cerca de 8 mil vagões, que também são muito antigos e pesados. Nós pretendemos investir em unidades mais modernas, de menor peso, que nos dêem uma melhor relação de peso versus carga útil.
Nossos atuais vagões têm 27 toneladas de peso próprio, carregando 90 toneladas úteis. Podemos ter vagões de 20 toneladas, carregando 100 toneladas úteis no total, melhorando nossa relação de custo por peso útil transportado.
Assim, poderemos agregar mais unidades a cada locomotiva, e o que se faz atualmente com cinco locomotivas, poderá ser feito com apenas duas, mais modernas e potentes, que exigirão menor manutenção. Claro que nós pretendemos ampliar a frota de forma gradativa. Não podemos simplesmente desprezar o nosso parque antigo, porque isso seria jogar dinheiro fora, e nós estamos aqui para ser lucrativos.
Tecnologística – Com todas essas melhorias, vocês pretendem atrair novas cargas que, no Brasil, não são tradicionais da ferrovia?
Serpa – Certamente. Contratamos uma consultoria internacional que está nos ajudando a planejar por onde devemos seguir. Estamos fazendo nesse exato momento um levantamento dos recursos necessários para atender a este mercado que está disponível à nossa frente. Hoje, temos as cargas tradicionais da ferrovia, que são os minérios, carvão, produtos siderúrgicos, grãos, alimentos e alguma coisa de contêiner. Dentro de nossa análise, queremos atrair outros segmentos, como a indústria automobilística e de autopeças, construção civil, agricultura, produtos florestais, madeira e celulose, além de ampliar a área de contêineres.
Tecnologística – Está sendo difícil fazer o mercado voltar a acreditar na ferrovia, depois de tantos anos de ineficiência?
Serpa – O cliente realmente fugiu da ferrovia, e será um passo grande trazê-lo de volta. Não adianta chegar para ele e dizer simplesmente que nós vamos prestar um bom serviço. É preciso demonstrar na prática. Daí todo esse nosso esforço e investimento, associado à mudança de comportamento do nosso pessoal.
Tecnologística – Vocês já possuem algum tipo de parceria com clientes, prestando serviços diferenciados?
Serpa – Sim. Para a General Motors, um grande cliente nosso, temos um trem dedicado que sai diariamente do pátio da montadora em São Caetano do Sul e vai até a fábrica da empresa em São José dos Campos, com horário certo, funcionando como um relógio. Este é um exemplo que serve para a indústria automobilística. Também temos investido em melhorias no setor siderúrgico. Tanto que, quando assumimos, estávamos transportando menos de 200 mil toneladas/mês de produto siderúrgico e já estamos no patamar de 350 mil toneladas/mês.
A Açominas, que transportava cerca de 50 mil toneladas/mês de minério de ferro por ferrovia, hoje está fazendo mais de 200 mil. Para São Paulo, seu transporte era todo rodoviário, e hoje ela já transporta cerca de 30 mil toneladas/mês conosco. O mesmo ocorre com a Usiminas, CSN e Cosipa; todas elas aumentaram significativamente seu nível de transporte ferroviário.
Tecnologística – Como funciona este esquema de parceria que a MRS tem com a GM?
Serpa – Nós estamos atendendo a vários clientes neste esquema, alguns da área siderúrgica. São trens unitários diretos, de ponto a ponto.
Neste caso, nós assumimos o compromisso de transporte da carga e o cliente se compromete conosco a reduzir o tempo de carga e descarga do vagão, fazendo uma operação rápida. É uma estratégia para que o cliente seja melhor atendido, que vem dando certo porque ele está correspondendo, fazendo o vagão girar o mais rapidamente possível. O vagão é nossa unidade de faturamento e não pode ficar parado. Fazendo em dois dias e meio, por exemplo, um percurso que era de 5 dias, cada vagão rende o dobro, o que é bom para nós e reverte em benefícios para o cliente.
Tecnologística – Vocês possuem alguma projeção de potencial de volume de carga a ser explorado pela ferrovia?
Serpa – Se eu te der uma projeção exata, estarei chutando. Porque praticamente ainda não temos histórico para isso. Mas numa análise rápida, quando assumimos, a malha fazia em média cerca de 3. 600 milhões de toneladas/mês. Nossa expectativa é chegar a 5 milhões de toneladas/mês até o final do ano, o que dá uma idéia do potencial de crescimento deste mercado.
Tecnologística – Com a defasagem do sistema ferroviário brasileiro, devem existir muitas cargas que seriam típicas da ferrovia seguindo pela rodovia, não?
Serpa – Sim. Para se ter uma idéia, basta analisar o quadro comparativo de utilização dos vários modais em países de proporções continentais, como o Brasil, para ver a diferença. Ou seja, como aqui a rodovia impera, em relação a outros modais. No Canadá, por exemplo, a ordem de grandeza entre o transporte ferroviário e o rodoviário é praticamente o inverso da nossa. Se compararmos à União Soviética e China, então, é um absurdo (Veja quadro à página 12).
Tecnologística – O que a MRS pretende fazer em termos de conexão com outros modos de transporte? Porque esta é uma grande crítica à ferrovia: a carga chega ao terminal e não há como transbordá-la.
Serpa – Você usou um termo que nós não queremos utilizar: terminal.
Terminal é onde as coisas terminam, e nós não queremos que nosso serviço se esgote na ferrovia. Nós não pretendemos ser meros vendedores de transporte ferroviário, queremos fazer também sua integração, de forma a prestar um serviço completo ao cliente. Hoje, nós temos que ser apenas transportadores ferroviários, porque é o que nossa estrutura nos permite. Além disso, a MRS é uma empresa nova, ainda não temos uma história de prestação de serviço, e credibilidade só se conquista ao longo do tempo.
Tecnologística – Vocês pretendem, então, transformar-se em operadores logísticos?
Serpa – Estamos iniciando um projeto neste sentido, em associação com a Vantine & Associados e com a Transplan. Esta última é uma empresa de consultoria em transportes que conhece bem o mercado ferroviário, e a Vantine é conhecedora do merca- do logístico. Juntas, as duas nos darão as diretrizes do que temos que fazer. Por enquanto, nós estamos procurando trabalhar bem nosso mercado atual, tentando atender os clientes na plenitude de suas necessidades para podermos dar um salto maior, oferecendo novos serviços.
Tecnologística – De que forma vocês estão agindo internamente para mudar a cultura que, imagina-se, seja muito antiga e arraigada num meio que ficou tanto tempo sem evolução?
Serpa – Numa primeira etapa, nós temos que mudar a mentalidade de ferroviário para transportador, presta- dor de serviços em transporte. Isso se faz com o tempo e muito treinamento. Nós estamos investindo bastante nessa área. Pelo fato de a empresa ser oriunda de uma estatal, as pessoas possuíam uma visão um pouco limitada, porque não tinham condições de viajar, trocar experiências. Nós estamos enviando funcionários ao exterior, visitando ferrovias eficientes, para que tenham novas referências. Iremos investir pesado no treinamento em informática, porque hoje ela é fundamental na logística, para a troca de informações rápida e eficiente. Como eu já disse, um 386 era o que havia de mais moderno aqui, então precisamos investir em treinamento nessa área também. Além disso, estamos trazendo simuladores para treinar os maquinistas.
Tecnologística – Simuladores como os de avião?
Serpa – Exatamente. São equipamentos de última geração, que simulam todas as condições de circulação de um trem. Desta forma, o maquinista poderá atingir uma operação mais econômica e segura, sem riscos. Isto irá melhorar muito a sua qualificação. Além disso, com estes simuladores pode-se testar virtualmente o tamanho ideal do trem, a capacidade de reboque da locomotiva, velocidade, tempo, quanto de combustível irei gastar, assim por diante. Poderemos implantar o traçado e as características da linha no computador e simular o trem ideal para cada carga. Poderemos, no futuro, até prestar serviço para outras ferrovias, fazendo estudos e treinando seu pessoal. Serão quatro simuladores e iremos investir, no total em treinamento, perto de 1,5 milhão de dólares. Nós temos bons empregados, o que falta é referência e treinamento.

Tecnologística – O senhor disse que a indústria ferroviária nacional não tem respondido às novas necessidades do mercado. Como está sua situação?
Serpa – Atualmente, ela não tem condições de atender à demanda. Nossa indústria já foi boa, mas deteriorou-se pela falta de investimentos no setor e até pela falta de mercado. Agora, está sendo reativada, mas não será da noite para o dia. Não terá a velocidade que nós necessitamos. É um processo, e acredito que dentro de uns 2 ou 3 anos ela possa estar apta a atender o mercado. Mas a indústria deve investir pensando no novo mercado, deve melhorar, ser moderna, senão acontecerá como em outros setores: vem alguém de fora e se instala. É importante termos uma indústria nacional forte, gerando empregos e divisas. E é mais fácil desenvolver nossa indústria do que trazer de fora.
Tecnologística – O contrato de concessão da MRS com a Rede Ferroviária Federal prevê algum tipo de pagamento?
Serpa – Nós pagamos, pelo direito de exploração da linha e aluguel dos equipamentos, aproximadamente R$ 70 milhões por ano. Isso é um grande fator de custos para nós, porque temos de investir na rede, gerar lucros e ainda pagar a concessão. Por isso, temos que ser enxutos em termos de custos, racionalizar ao máximo nossa operação porque, em média, de cada tonelada transportada, 1,5 Real vai para o pagamento da concessão e arrendamento. Nós investimos em equipamentos e, quando terminar a concessão, teremos que devolver tudo para o poder concedente. É realmente pesado.
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