Pablo Doregger e Arthur Hill – A logística da boa vizinhança
Publicada originalmente na Revista Tecnologística Ano II, n° 18 – maio de 1997
Entre os dias 15 e 17 de abril passado, a Associação Brasileira de Logística realizou sua primeira Conferência Anual, no Hotel Deville, em Guarulhos, São Paulo. Durante os 3 dias cerca de 450 pessoas compareceram ao evento, participando das 54 palestras apresentadas, que enfocaram variados temas ligados à logística. Entre os palestrantes, estava Pablo Doregger, vice-presidente da Arlog – Asociacion Argentina de Logistica Empresaria – que falou sobre as tendências atuais da logística na Argentina.
Aproveitando sua presença, a Tecnologística, juntamente com o presidente da Aslog, Arthur Hill *, fez o que o tema central da conferência sugeria: a busca da integração. Nesta entrevista, eles falam do surgimento das duas associações, das dificuldades que os dois países enfrentam na formação logística e infra-estrutura, além da atuação interna e em relação ao Mercosul, mostrando as semelhanças e diferenças da prática da logística no Brasil e Argentina.
Tecnologística – Podemos começar falando um pouco da história das duas associações.
Pablo Doregger – A formação da ARLOG começou em 1990, num largo processo de discussão sobre o caráter que teria a associação, chegando-se ao consenso de que ela deveria ser realmente uma entidade profissional e não uma câmara, atendendo a interesses gerais e não setoriais. No início, fizeram parte representantes de setores de serviço, transporte e a indústria, e em seguida agregaram-se aqueles que trabalhavam nos canais de distribuição. Éramos cerca de 20 pessoas e decidimos que, da mesma forma que a Aslog, a filiação deveria ser individual. Neste momento, não apenas a logística estava pouco desenvolvida na Argentina como não havia uma preocupação generalizada sobre o assunto, a não ser por parte de poucos que tinham contato com entidades estrangeiras, como o CLM nos Estados Unidos. Naquele momento, o fator fundamental para as empresas era o financeiro, por- que havia uma inflação muito forte.
A estabilidade em nosso caso começou pouco tempo depois da fundação da Arlog e, com ela, veio um clima mais propício ao crescimento da logística. Creio que o mesmo aconteceu no Brasil.
Arthur Hill – Exatamente. A Aslog surgiu em junho de 1989, muito próximo, portanto, da Arlog, e ainda um ambiente de hiperinflação.
Mesmo assim, conseguimos reunir naquele momento 450 pessoas interessadas em formar a associação.
De lá para cá, nós tivemos algumas dificuldades para fazer a entidade progredir, pois como o trabalho é voluntário as pessoas acabam dedicando menos tempo à atividade.
Acho que o grande marco para a Aslog foi o ano de 94, justamente quando passamos a viver no Brasil um ambiente de estabilidade econômica advinda do Plano Real.
Tecnologística – Quais são basicamente as atividades das duas entidades?
Doregger – Creio que estamos mantendo por um lado uma atividade regular e, por outro, uma posição que contempla a todos os interesses que se movem dentro da logística.
Desde o início, realizamos todos os anos um congresso, que chamamos Encontro Anual – que é semelhante a este realizado pela Aslog, só que com menos tracks paralelos. Fazemos também desjejuns mensais de trabalho, sobre temas específicos, dos quais participam ao redor de 80, 100 pessoas, dependendo da atratividade do tema. Como estes encontros mensais se mantiveram constantes ao longo do tempo, acabaram transformando-se num ambiente natural para o intercâmbio de experiências, fazendo com que todos os colegas hoje se conheçam, o que é importante. Por outra parte, fazemos eventualmente algumas coisas específicas, como por ocasião da visita de alguém importante do exterior, algum seminário. A atividade até agora esteve muito centrada em Buenos Aires, porque na Argentina a economia está concentrada na região da capital, ao contrário do Brasil que possui vários centros econômicos importantes. Estamos desenvolvendo agora atividades no interior através de nossa sede em Rosário.
Hill – Na Aslog as atividades também sempre estiveram muito centradas em São Paulo, apesar de termos associados de outras cidades e estados. Nossa forma de atuação até 94 eram iniciativas bastante isoladas, e uma das formas de atuar foi através da formação de comissões técnicas, formadas por pequenos grupos de pessoas que se reuniam mensalmente com diversas atividades. Dentre estas comissões, onde tratamos das áreas de meio-ambiente, informática e automação, entre outras, a que mais contribuiu para o desenvolvimento da Aslog foi a que tratou da padronização de paletes, participando do processo que criou o Palete Padrão Brasil, ou PBR.
Doregger – A Arlog também participou ativamente da gestão para padronização de paletes na Argentina, tanto que agora nosso palete padrão é conhecido pelo mercado como palete Arlog, ainda que não tenhamos feito mais que coordenar todo este processo de normatização.
Aparentemente, os paletes são do mesmo modelo brasileiro: 1,00 x 1,20, 4 entradas, 9 tocos. Mudam os tipos de madeira, devido à disponibilidade no país.
Hill – Já temos então uma grande vantagem, que é o formato do palete em comum. Complementando a questão das atividades, outras sessões muito importantes foram as de terceirização – havendo inclusive um encontro em 1992 que teve enorme audiência, principalmente considerando-se que era um tema ainda pouco explorado no Brasil. Através destes encontros, ocorridos por 3 anos consecutivos, acredito que a Aslog tenha dado uma contribuição significativa para o desenvolvimento desta prática no Brasil. E, ao contrário da Arlog, não tínhamos realizado até o momento uma Conferência Anual, nossa prática sempre foi de eventos mais isolados, com temas específicos para cada público. Acredito que esta primeira Conferência tenha sido outro marco na história da associação.
Tecnologística – Aqui no Brasil estamos vivendo um boom muito forte da logística. Gostaria de saber se na Argentina a situação é a mesma?
Doregger – Na Argentina, a logística cresceu muito lentamente até a estabilidade econômica. Aí o que ocorreu é que alguns cresceram devagar, enquanto outros seguiram mais rápido. Os mais lentos tendem a ver a logística como uma moda, o que ela não é. Mas pensamos que isto irá se equilibrar, e que estas duas frentes vão convergir. No Brasil vocês podem estar um pouco aquém, porque o processo de estabilidade veio depois do nosso, mas a tendência é a mesma. O difícil é fazer isto com os pés na terra e a cabeça no céu; ver o que está se passando no mundo porém sem deixar de olhar onde estamos, para fazer com que estas duas linhas se encontrem. E há que se prestar atenção para o que ocorre no caminho, porque embora a logística não seja uma moda, surgem modas dentro da logística.
Tecnologística – E como foi suprida esta demanda por pessoas que trabalham em logística.
Doregger – A demanda vai sendo atendida com os generalistas que se especializam. Acredito que o Brasil, por ser mais pujante, criou uma demanda maior. Mas na Argentina basta dizer que, apesar do desemprego significativo que existe no país, há no campo da logística uma grande demanda.
Hill – O mesmo ocorre no Brasil. Quando a associação foi fundada, havia até um certo romantismo em trabalhar nesta área, ninguém sabia do que se tratava. Mas nos últimos dois ou três anos está havendo uma explosão com relação a produtos e serviços em logística. E aqui também, mesmo com desemprego em vários setores, é difícil encontrar um profissional de logística desempregado. Vemos jovens saindo da Universidade entusiasmados com as perspectivas da carreira. Dentro da Aslog sempre tivemos uma bolsa de empregos, pessoas que enviavam currículos para eventuais oportunidades. Hoje, temos mantido isso em aberto, porque a oferta de trabalho é muito maior que nossa capacidade em atendê-la.
Tecnologística – Gostaria de fazer uma comparação entre a formação em logística nos dois países e de como as associações atuam neste sentido.
Doregger – A preocupação com a formação sempre esteve presente na Arlog e temos várias atividades neste sentido. Não pretendemos competir com algumas universidades argentinas, onde a logística já está presente como matéria, e existe até um mestrado com orientação em logística, na Universidade de Belgrano. O que nós entendemos ser nosso campo de atuação é a promoção de programas de formação para pessoas que já atuam na logística a um nível de gerência média, e que necessitam melhorar sua formação.
Neste sentido, o primeiro passo foi trazer aquilo que havia de mais forte no mundo. Após uma pré-seleção, nos pareceu que o programa da “Logistics Training International”, uma entidade vinculada aos institutos de logística da Inglaterra, servia bem às nossas necessidades. Nós decidimos por esta alternativa, que não permite uma transição mecânica, já que se trata de duas realidades diferentes. Seguimos o programa com bastante liberdade para introduzir mudanças, o que nos gera muito trabalho. Temos também uma parte de casos vinculados à realidade argentina, em parte desenvolvido a partir de experiências pessoais nossas e parte em programas “in company” que realizamos. Com base nas necessidades levantadas, montamos este curso geral.
Hill – Bem, a questão da formação está explícita na nossa missão, mas ao longo destes anos não conseguimos estruturar formas de solucionar esta questão. Temos feito coisas indiretas. De 92 a 95, criamos alguns cursos rápidos de extensão, ministrados por diretores da Aslog que se dispuseram a dar aulas. A partir de 96, nós decidimos não mais ministrar estes cursos porque eram pouco estruturados e não tinham a legitimidade que teria um programa mais formal junto às escolas. Assim, iniciamos um projeto chamado “Logística nas Escolas”, com a meta de fazer com que as faculdades de Engenharia, Administração e outras, incluam a logística em seus currículos, tanto na graduação como na pós-graduação. Talvez a partir do próximo ano este projeto comece a frutificar.
Outra questão importante é o interesse das universidades públicas em desenvolver pesquisas em logística. Temos desde 1994 uma parceria com a COPPEAD, que é hoje nossa melhor escola de logística e que vem desenvolvendo pesquisas importantes para aumentar o conhecimento de nossa realidade. E temos algumas universidades públicas que começam a se interessar pela logística. Todas estas iniciativas que estão ocorrendo dentro de nossas escolas são estimuladas pela Aslog, já que estamos fomentando contatos e trazendo as pessoas para perto do tema.
Então, abrimos mão de cursos próprios para buscar uma estrutura mais formal, que possa ser reconhecida como a melhor fonte de conhecimento em logística.
Tecnologística – Qual é o perfil dos profissionais que acompanham estes cursos?
Doregger – Na Argentina, metade deles é graduada na universidade, metade não. Estamos acostumados a trabalhar com a heterogeneidade.
Não sei como é no Brasil, mas na Argentina muitas pessoas que trabalham em logística não têm curso universitário. Esta é uma situação bastante generalizada, e sem esta gerencia média não se faz logística. Ela não se faz apenas com diretores e investimentos. E necessária a gente que a pratica também no dia a dia. Nós temos que fazer muito mais no sentido de vincular as universidades à Arlog, como vocês fazem. Outro ponto diferente que eu vejo é que no Brasil as indústrias estão muito mais próximas das universidades, porque este é um país em que a indústria tem uma presença forte na economia. Mas creio que, embora o Brasil apresente características muito semelhantes a Argentina, em certo sentido a realidade brasileira se parece mais com a dos Estados Unidos, pois são ambos países descentralizados.
Hill – Eu concordo com o Pablo, de que até a geografia tem influenciado nossas orientações. Na medida em que o Brasil é um país tão grande e sua população, embora ainda mal distribuída, seja melhor distribuída que a argentina, nossa orientação é muito mais para o modelo americano, que tem proporções mais parecidas. Ele falava do esforço de interiorização na Arlog, e eu gostaria de frisar que nós também estamos empenhados nisso, em tirar a logística de São Paulo e levá-la a todas as partes do país. Inclusive durante esta conferência nós recebemos pedidos de participantes de outras cidades e regiões, do Sul, Norte e Nordeste, para que passemos a realizar eventos nestas localidades. Este esforço está sendo feito em duas frentes. A primeira é o estabelecimento das “round tables”, uma ideia que nós copiamos, no bom sentido, do CLM; e outra é a tentativa de criação de regionais da Aslog.
Elas seriam grupos de sócios que estariam se estabelecendo formalmente, criando uma programação de atividades, escolhendo por seu próprio arbítrio temas de seu interesse, e que pudessem satisfazer as necessidades de troca de informações dentro das diversas regiões.
Tecnologistica – Apesar de nenhum de vocês serem especialistas em Mercosul, eu gostaria de saber, no caso de uma logística comum para a região, de onde nós partiríamos, em que modelo nos inspiraríamos para fazer uma logística comum.
Hill – Acho que o modelo não será muito diferente do que nós já estamos fazendo em nossos países. Nós precisamos mesmo é catalisar e aproximar as pessoas. Acho que tanto a Aslog como a Arlog têm um enfoque muito centrado no profissional, e o que nós temos que fazer é capacitar as pessoas para administrar estes sistemas integrados. E integrados em todos os sentidos, inclusive geográfico agora. Estamos até pensando em fazer uma reunião em Foz do Iguaçu, nos próximos meses, justamente para aproximar as pessoas. Acho que este é o caminho de uma logística comum: Buscar a integração entre os associados das duas entidades para que haja nivelamento de conhecimentos, a troca de informações, para que na hora de sentar à mesa para firmar contratos e regras, a coisa seja mais fácil. Vejo a importância desta aproximação entre os usuários dos vários lados da fronteira, porque nós temos colegas e provedores de serviços também no Paraguai e Uruguai que estarão competindo em nossos mercados. Então é importante estes encontros onde possamos reunir as pessoas, debater assuntos comuns.
Acho que este seria o caminho mais seguro para nos integrarmos.
Doregger – Concordo com o Arthur de que tanto na Arlog como na Aslog nós não tratamos da economia nem dos planos nacionais, mas sim trabalhamos em empresas, temos uma mentalidade micro da economia; o macro nos interessa apenas de uma forma geral. Então, se nós estamos pensando em sermos os artífices do desenho de soluções logísticas para todo o país ou o Mercosul, dificilmente teremos posições gerais sobre os temas macro.
Podemos ajudar a divulgar alguns temas, como vocês fizeram aqui na Conferência em algumas apresentações. Em nosso encontro anual de 1995, o tema também foi o Mercosul, porém encarado como um contorno de negócios. Creio que temos uma oportunidade muito grande de trabalho conjunto, se tivermos iniciativas conjuntas que nos contatem com o resto do mundo. Por exemplo, podemos trazer em conjunto algum palestrante que ambos escolhermos, ou ter iniciativas conjuntas que nos proporcionem, como o Arthur falou, um maior contato, ampliando o campo no qual estamos fazendo benchmarking. Porém, sempre tendo em mente que quem faz parte das duas associações são profissionais, indivíduos. Eu penso que o intercâmbio de experiencias, de como resolver soluções distintas, nos permita ampliar nossa atuação.
Tecnologística – Mas não existiriam algumas questões, como as de padronização, em que se poderia atuar de forma conjunta?
Doregger – Creio que a preocupação central de nossas associações deva ser mesmo pelas pessoas. Nos importa elevar o nível da prática profissional. Esta é uma tarefa suficientemente complexa, que nos exige uma grande dedicação.
Não estou dizendo que desta água não hei de beber, porém creio que ambas as associações têm ainda muito por fazer em seu âmbito específico de atuação, muitas coisas pendentes.
Hill – Acho que nós temos que ser proativos em traçar estratégias que facilitem a troca de informações, para que se estabeleçam canais permanentes. Assim, quando o mercado começar a puxar determinadas demandas – como por exemplo as de padronização, na medida em que os negócios começarem a se realizar de uma forma mais intensa – nós já tenhamos o caminho pavimentado. Já saberemos com quem conversar, com quem obter informações, como divulgar os trabalhos.
Enfim, acho que nós podemos preparar as duas entidades, e também os profissionais dos demais países, para que estejam prontos e acostumados a trocar informações. Assim, poderemos eventualmente criar comissões de estudo e começar também a atuar.
Tecnologistica – Ao menos no Brasil, a tendência é que o governo interfira cada vez menos na economia, deixando para a sociedade determinados papéis. Como ambas as associações pretendem influi, daqui por diante, nas várias decisões que dizem respeito à sua área?
Doregger – O que nós temos feito é convidar autoridades para participar das atividades referentes a determinados assuntos. Na questão do ECR, por exemplo, elas não participaram porque é um tema técnico.
Mas acredito que este tipo de participação seja canalizada para algum associado nosso, que nos representaria nas discussões.
Hill – A Aslog no Brasil também não tem tido uma atuação política no sentido macro, de por exemplo fazer pressões para mudar regulamentações, porque nos entendemos que este seja papel das entidades classistas. Agora, certamente que nós temos que estar atuando dentro de assuntos que estão ligados a estas mudanças estruturais e de regulamentação. Só como exemplo, nesta nossa primeira Conferência Anual tratamos do assunto transporte e intermodalidade, onde percebemos que existe uma mudança estrutural violenta, a começar pela questão das privatizações. Nessas nossas palestras vieram pessoas do governo esclarecer planos e caminhos, vieram convidar empresas das quais nossos associados fazem parte para parcerias. Então, acho que a Aslog está cumprindo seu papel de catalisar um intercambio dentre aqueles que determinam os planos macroeconômicos e os usuários. Novamente, é a busca pela integração. Penso que é isto que as duas associações devam fazer: promover fóruns, debates, criar um canal para que governos e entidades ligadas à macroeconomia, à questão estrutural, possam trazer seus conhecimentos.
No caso específico do movimento ECR Brasil, foi exatamente o que nós fizemos, convidando o senhor Roberto Demeterco – que além de presidente da EAN – uma entidade importante dentro deste movimento – também e vice-presidente da ABRAS, a entidade dos supermercados. Nosso público teve oportunidade inclusive de ser convidado para participar. Então, acho que nossa forma de atuar não é na liderança, na determinação dos rumos, mas é trazendo para nossos associados informações, esclarecimentos de modo que eles possam estar preparados para participar melhor do processo.
Doregger – Em linhas gerais, eu concordo com o que o Arthur falou.
Tecnologística – Nesta conferência tratou-se dos problemas de infraestrutura e do “Custo Brasi”. Gostaria de saber como está a situação do lado argentino.
Doregger – Na Argentina esta parte de infraestrutura está privatizada e o funcionamento está meIhor, embora não seja o ideal. Seguramente temos ainda problemas graves para resolver. E há fatores de custos que são inevitáveis e estão vinculados à economia, à centralização do país, e outros muito mais difíceis de se administrar que têm a ver com o nível de informação geral, com a formação específica e com a situação que enfrentam as empresas em um país em que o consumo está afetado pelo desemprego.
Hill – Acho que neste aspecto existem muitas semelhanças. Pela própria forma como os dois países foram colonizados e pela qual desenvolveram suas economias, acabaram criando problemas crônicos semelhantes.
Tecnologistica – Como está a situação do transporte?
Doregger – Não tenho as cifras exatas, mas temos um predomínio muito grande do rodoviário. Depois da privatização das ferrovias, isto caiu um pouco para as grandes distancias e cargas massivas, mas ainda não dramaticamente. No ferroviário, algumas empresas sócias majoritárias dos consórcios que venceram as concorrências são as usuárias da linha, em outros casos não. Houve uma melhoria, mas também não houve investimentos pesados em infraestrutura, vias ou veículos. Na Argentina temos também grandes distancias. Muitas matérias-primas atravessam o país e a estrutura neste caso deixa ainda a desejar. Somos muito dependentes dos caminhões e parte de nossa frota está muito atrasada, ainda mais do que no caso brasileiro. Durante muitos anos, as indústrias argentinas forçaram o frete para baixo, e isto teve como consequência a não renovação da frota, que hoje tem idade média de 16 anos ou mais, embora em alguns casos isto esteja baixando rapidamente. Existem outros problemas, como o atraso de investimentos em multos setores, mas acredito que olhando positivamente, há que se dar ênfase ao que já foi feito.
Tecnologística – E com relação às hidrovias?
Hill – Este e um tema entusiasmante que foi tratado dentro desta conferência, o desenvolvimento das hidrovias que vão integrar os países do Mercosul. Temos grandes extensões de rios navegáveis que irão beneficiar uma área extraordinária, especialmente com relação a agricultura, em que os dois países continuam tendo uma vocação muito grande. Certamente, a viabilização do transporte hidroviário irá mudar o perfil da utilização dos transportes em todos os países da região, com menos ênfase no rodoviário – um problema que nós vimos que ocorrer tanto no Brasil como na Argentina – que será deslocado para suas verdadeiras funções, de distribuição a curtas distancias e nas áreas urbanas, deixando a hidrovia para as grandes massas, as riquezas agrícolas e pecuárias. Creio que realmente este será um assunto entusiasmante para ser desenvolvido e debatido entre os dois países,
Doregger – Uma das coisas que eu já anotei aqui para levar para a Arlog foi a iniciativa excelente que vocês tiveram de convidar pessoas para falar de hidrovias, um tema importante e sobre o qual especificamente temos trabalhado pouquíssimo.
Tecnologística – Além disso, você sai desta conferência com alguma outra ideia para sua associação?
Doregger – Eu tive uma perspectiva diferente vendo como vocês atacam determinados problemas. Volto a Argentina com algumas ideias reforçadas, que já faziam parte da nossa preocupação. Uma é a necessidade de maior proximidade entre a Arlog e as universidades, e outra é o vínculo entre as indústrias e as universidades, que não é tão forte como o que há no Brasil. O segundo ponto que nos preocupa e que nós estamos muito mais centralizados que vocês, e temos que ter uma presença no interior muito maior que a que estamos tendo.
Tecnologística – Para finalizar, em quais setores a logística está mais desenvolvida na Argentina?
Doregger – Além da indústria automobilística, creio que a indústria farmacêutica, o setor de consumo de massa e algumas cadeias de supermercados tem a logística bem desenvolvida. O que contribuiu para o desenvolvimento da Arlog foi justamente a experiência destes muitos setores que se intercambiou nela.
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