Evacuação aeromédica

Quem criou a Serviço de Evacuação Aeromédica foi o Major Dr. Assis, já falecido.

No ano de 1963, no Hospital de Canoas, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Criou, normalizou, divulgou e incentivou.

Todos os hospitais do interior do Estado, guarnições do Exército, Polícias, Serviços de Saúde receberam normas de acionamento e transporte aéreo de doentes.

O aerotransportado poderia ser rico, pobre, militar ou civil; somente era preciso que um médico local atestasse a necessidade do uso do avião. Para acioná-lo, valia qualquer meio de comunicação.

Houve imensa repercussão e os pedidos choveram. Não se fazia outra coisa dia e noite, sábados, domingos e feriados.

Nós da Base Aéreas de Canoas tínhamos que providenciar aviões e pilotos. O hospital de Canoas, os médicos, os enfermeiros, as macas e os medicamentos.

Os aviões eram os C-47, T-7, T-11 e os C64 Noorduyn. Este último, o mais velho de todos, era o mais usado nos vôos pelo interior do Estado. Muitas vezes substituía os C-47 e os T-7 com vantagem, pois levava quatro macas e pousava em qualquer terreno baldio e alagado que se denominasse pista de aviação.

Não existiu avião mais feio. Chegava a ser indecente, plantado sobre enormes trens de pouso quadrados.

As asas imensas em tela e alumínio descascado, o corpo disforme, grosseiro, sem aerodinâmica, davam-lhe um aspecto grotesco.

O ventre enorme, guardando dois tanques no bojo, causava pavor aos aviadores, quando operando, em pistas cascalhadas e acidentadas.

Resumindo, eram 900 litros de gasolina e óleo cuidadosamente envolvidos em tela e algodão, tracionados por um valente motor de 600 HP.

De triste fama, por ter morto Glenn Miller na década de 40, jamais arranhou brasileiro, embora tivesse sofrido vários acidentes. Não arranhou, mas quebrou costela de um padre alemão e fogueteiro que também o adorava, lá perto de Torres, próximo do Estado de Santa Catarina. Mas isto é outra estória. Vamos à de hoje.

Sexta-feira à tarde, acabara de receber um telegrama do Hospital, avisando que alguém agonizava em Santa Vitória do Palmar no extremo sul do Estado.

Após rápida consulta na disponibilidade diária, verifiquei que parte do vôo teria que ser feita à noite. A missão era para ser realizada por avião de maiores recursos, porém, todos estes aviões, equipados para võo noturno, estavam empregados em outros vôos ou em revisão.

Eram três horas da tarde e a lesma Noorduyn levava pelo menos seis horas de vôo para ir e voltar a Santa Vitória do Palmar. Isto, se os ventos fossem favoráveis.

Liguei para o comando e expliquei a situação. O Comando, idem, idem, para o Hospital. O Hospital explicou que o transporte de Santa Vitória para Pelotas já resolveria o problema, pois o que caracterizava o EVAM era o deslocamento do paciente de um centro menos desenvolvido para um de maiores recursos médico-hospitalar. Tudo certo, mas, neste papo de milico, lá se foi mais meia hora sagrada e preciosa.

Dei dois telefonemas consultando colegas para fazerem a viagem, mas, em virtude do adiantado da semana e da hora, recebi um caminhão de desculpas. Resolvi ir, embora o Comandante já me tivesse alertado por estar voando demais (“… é preciso cuidar do trabalho no chão, etc.etc.”).

Com macas, tubos, soros, enfermeiros, remédios e gasolina até o talo, lá se foi o monstrengo pela pista de táxi, com uma batida surda no motor e um trotão de cavalo manco.

Tratava-se da fina flor da indústria Aeronáutica Canadense, dos idos de 1936, desfilando na passarela em tarde de sol. O calor do motor ia direto no peito do piloto, pois a parede-de-fogo era toda furada.

Ou, “já era”, como se diz hoje.

Este bafo, acompanhado do vento frio que entrava pelas janelas laterais, era responsável por tremendas gripes. No lugar do horizonte e do giro (instrumentos fundamentais no vôo cego), dois sombrios buracos.

É que o Noorduyn humildemente, também servia de suprimento para aviões mais importantes. Apliquei, no acelerador, a pressão barométrica do campo, chequei ignição, potência e comandos, ordenei sete voltas de flap e, após a permissão da Torre, abri tudo que tinha direito na manete de potência.

Foi um Deus nos acuda! O monstro fez um barulhão de Apolo 7, tremeu todo e partiu com a evidente má vontade das rodas que se moviam lentamente. O aumento de calor no peito e na barriga, o vento zunindo nas janelas abertas, o berro estridente do motor, toda a estrutura da tela tremendo e rangendo tornavam a decolagem inacreditável.

Em perfeita coordenação com a abertura da manete, o pé direito tinha ido todo ao fundo, compensando o horrível torque da “coisa” para a esquerda. Decolamos. Cirne, o mecânico, recolhia o flap, vagarosamente, enquanto o avião afundava.

Logo após, tomamos uma empolgante atitude de subida com 90 milhas no velocímetro, nariz para cima, cauda para baixo, соmo se fôssemos um Boeing 747. Mas não se ganhava um pé…

Além disso, a máquina era artista e quase sempre fazia o papel de avião do bandido. Costumava aparecer em tardes de domingo, nas inesquecíveis fitas em série do Sombra, do Homem Morcego e do Pingüim, no cinema Apolo e em outros poeiras de Porto Alegre. Após três horas de vôo, chegamos.

Não pude deixar de escapar palavrões pela demora da ambulância com o paciente. Por causa da hora, já não poderia ir a lugar algum, em vôo visual diurno. Enfim, a ambulância, levantando poeira na estrada.

O primeiro moço de óculos que desceu levou a bronca direto:

– Mas doutor, a esta hora! – Assim não é possível! Não posso ir a lugar algum à noite, com esta lata velha.

O troco veio rápido e no mesmo tom:

-“O menino é pobre e tive dificuldades em arranjar uma ambulância. O senhor tem que hoje, senão ele morre”. “Está na última fase do tétano e já esgotei os recursos locais”.

A minha bronca ” michou” completamente e perguntei se não dava para agüentar o menino com vida mais uma noite, ou, pelo menos, levá-lo só até Pelotas.

Recebi outra resposta decisiva: -“Se o senhor deixar para amanhã, pode decolar sozinho, pois ele estará morto – Pelotas também não serve”. Fui para um canto calado e triste, sob os olhares ansiosos de todos e ouvindo o choro baixinho da avó e da mãe do doente. Gente sofrida do interior, humildemente vestida de tecido barato, com panos coloridos nas cabeças, descompondo ainda mais as faces magras e maltratadas.

Pensei em todas as besteiras que tinha feito na minha carreira curta e acidentada. Recordava o blá blá blá dos instrutores da Escola de Aeronáutica, principalmente naquela parte que fala em arriscar cinco vidas para salvar uma. Era evidente que ia fazer mais burrice e, desta vez, das grossas. Pensei em deixar todos e partir sozinho com o garoto, mas lembrei-me que ele poderia morrer por falta de assistência durante o voo.

Quando mais eu pensava, mais o sol descia no horizonte, agora ameaçando a decolagem, pois o campo não tinha iluminação alguma. Reuni minha tripulação sob a asa esquerda, o mais afastado possível da ambulância. Falei no que ia fazer, dando ampla liberdade de desistência a todos. Empenhei minha palavra de honra, assegurando que nada aconteceria aqueles que desistissem do vôo. Pediram cinco minutos para pensar. Voltaram um pouco pálidos, mas todos prontos para a missão. Não esperava outra resposta, porque conhecia aqueles homens profundamente. Estavam conscientes do enorme risco que iriam correr, entregando a alma a dois malucos, o Noorduyn e eu.

Decolamos. Não havia lua. Rumei para a praia e grudei o olho na areia branca e na rebentação, mantendo-me a 200 metros, segundo indicação do velho e duvidoso altímetro. Uma única lâmpada, pendurada no teto do avião, fornecia pálida luz amarela. Os instrumentos, via-os com terrível dificuldade. Foram as três horas mais longas da minha vida. Estava exausto, com a vista ardendo e a garganta seca pelo forte calor da cabine.

No compartimento de passageiros, os dois enfermeiros lutavam no escuro para pendurar os vidros de soro e aplicá-los. Nos bancos de lona laterais, as duas choravam, não sei se de pena do menino ou de medo do avião. Na maca, o pequeno enfermo, muito parecido com meu filho, tenso, com a nuca rígida, parecia uma tábua, vencido completamente pela infecção. No rosto, os sintomas característicos da doença.

Voltei-me, instintivamente, pois nesta rápida olhada para dentro o monstro já estava todo torto em relação à praia. Consertei-o docilmente. Agora voava sobre a Lagoa dos Patos guiando-me pelas margens, que faziam excelente contraste com a escuridão do terreno. Estava quase em casa e já vislumbrava uma claridade enorme, um pouco à esquerda. Era Porto Alegre. Preparava-me para enfrentar o os rigores do Tráfego Aéreo e a gozação dos Comandantes de linha regular. Calculei 50 Km do Aeródromo. E botei a boca no mundo, valendo-me do meu modesto HF Comandinho.

 – Controle Porto Alegre, FAB 2204, Cavalhada aos 50 minutos, Salvamento de Vida Humana, instruções.

-FAB 2204, de Controle Porto Alegre, acuse nível, procedência e destino. Como não tínhamos nível aprovado, nem plano de vôo, nem гаdiocompasso, iniciei a operação vexame nos seguintes termos:

-FAB 2204 informa, entrando visual noturno na terminal, a 300 metros, procedente de Santa Vitória, em missão SAR, destino Gravataí.

-FAB 2204, de Controle Porto Alegre, livre, bloquear Papa no nível 20 e avisar. -Negativo! Solicito aproximação direta para Gravataí; conduzo doente em estado desesperador. Câmbio.

-Fez-se um silêncio de tumba. Ouvi instruções do Controle mandando aeronaves afastarem- -se do setor de entrada e formou- -se uma corrente de solidariedade humana em que todos os caminhos de abriram, embora estivéssemos completamente errados.

A magnífica pista de Gravataí, com excelente iluminação estava à nossa disposição. Eu e meu dinossauro tocamos suavemente cientes da carga preciosa que transportávamos. Alguém ajudou-me a sair do acanhado compartimento. Minhas pobres pernas assadas e encolhidas por seis horas não queriam esticar novamente. Fui para casa em completa estafa. Ao entrar, levei tremenda bronca por ter esquecido vários compromissos marcados para aquele dia. Minha mulher, normalmente com um filho dentro e um fora, sempre ficava por último na minha agitadíssima agenda. Ainda ouvindo o ronco da máquina e Patati – Patatá da distinta caí em sono profundo.

Naquele dia, por certo, o Senhor lá de cima deve ter marcado pelo menos um pontinho na minha fraquíssima contabilidade. Soube, um mês depois, que o paciente havia sido salvo. Deve estar um rapazola de 17 anos. Tenho esperança de vê-lo um dia, em Santa Vitória do Palmar, com seu médico, malcriado que nem eu. O Noorduyn deu baixa há muito tempo. Outro dia tive oportunidade de revê-lo. É que televisão tem passado filmes tão velhos, ultimamente, que de vez em quando o bandido ainda foge nele no final de alguma sessão da meia noite. Logo após, aparece o mocinho e derruba-o, enchendo-me de tristeza e saudades.

 

Autoria: Flávio Coimbra Barbosa *

Data: 01 de fevereiro de 1981

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(*) Piloto de linha aérea