Ano: 1727

Café

O café foi responsável por impulsionar a economia brasileira desde o final do século XVIII. Durante o oitocentos, eventos históricos foram cruciais para fomentar a produção e a comercialização desse produto também conhecido como “ouro verde”. A abertura dos portos às nações amigas, a independência e o período imperial foram acontecimentos vinculados à história do café e do desenvolvimento das lavouras.

Durante a segunda metade do século XIX, o crescimento da atividade agrícola vinculada à produção do café fomentou ainda a expansão das ferrovias e das rodovias, modais necessários para o escoamento da produção e para a modernização dos centros urbanos que cresceram, principalmente no Sudeste, em função dessa forte atividade econômica. Assim, a história do café do Brasil também está profundamente relacionada a história dos transportes.

A fruta vermelha que nasce do pé de café tem origem nas terras do nordeste da África, mais especificamente na Etiópia, onde começou a ser cultivada em tempos muitos remotos (MARTINS, 2012).

Apesar da origem africana, Ana Luiza Martins explica que foram os árabes os responsáveis pelo domínio da técnica de plantio e preparação do produto. Segundo a autora, o café foi levado desde a Etiópia até a península arábica através do mar vermelho.

“De acordo com os mesmos manuscritos do ano de 575, a primeira região a receber as sementes do fruto foi o Iêmen (sudoeste da Ásia). Só por volta do ano 1000 seria conhecida sua infusão, com as cerejas fervidas em água, servida para fins medicinais. […] O processo de torrefação, porém, só foi desenvolvido no século XIV, quando a bebida adquiriu forma e gosto como a conhecemos hoje”. (MARTINS, 2021, p.19-21)

Desde o século XV, então, com o desenvolvimento das relações comerciais e a expansão das trocas com o Oriente, o café começou a ganhar o mundo. Junto com a internacionalização do grão, nasceu também um novo hábito: o consumo do tradicional cafezinho.

Ana Paula Martins destaca que, em 1574, os cafés do Cairo (Egito) e de Meca (Islã) eram locais procurados, principalmente por artistas e poetas (idem, p.23). A bebida, liberadora de uma substância que pode estimular emoções, passou a ser parte também de rituais sociais e religiosos. No entanto, o consumo excessivo da bebida preocupou o clero muçulmano, que chegou a interditar a bebida durante o século XVI. A proibição, no entanto, foi derrubada pelo sultão Murad III, que tornou o café sagrado.

De lá para cá o café ganhou primeiro a Europa, depois o resto do ocidente. Mas o que nos interessa é saber como esse grão começou a ser cultivado aqui, no Brasil.

Essa história pode ser dividida em dois momentos. O primeiro diz respeito ao conhecimento do grão, algo que já teria acontecido, de acordo com Ana Luiza Martins, no século XVII, quando a bebida passou a ser consumida na colônia através da sua importação de mercados estrangeiros pelos colonizadores. Vindo de Portugal, o grão chegou à colônia através do diplomata português Duarte Ribeiro de Macedo. Em seu “Discurso sobre os gêneros de comércio que há no Maranhão”, publicado em 1663, o diplomata mencionou 37 produtos, dentre eles o café (MARTINS, 2012, p.36)


Le café. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], [1836-1839].

O segundo momento diz respeito à introdução das primeiras sementes para o cultivo do grão. De acordo com a pesquisadora, esse fato ocorreu em 1727 no Pará. O registro atribui a Francisco de Melo Palheta a autoria da introdução.

Apesar dos poucos documentos que atestam as atividades de Palheta, sabe-se que ele era sargento-mor e, sob as ordens do governador do Maranhão e Grão Pará, o português João da Maia Gama, foi à Guiana Francesa para resolver problemas de fronteira.

Ao que tudo indica, Palheta possuía uma missão secundária, que consistia em conseguir sementes de café que, na época, já tinham grande valor comercial por seu cultivo na península arábica e sua introdução como hábito na Europa (BRASILIANA FOTOGRÁFICA).

“O festejado introdutor do café no Brasil – sempre tipificado como vulto aventureiro, a serviço do engrandecimento das rendas do Império português – tem sido apresentado de forma pitoresca. Ilustradores anônimos reproduzem o personagem sempre trajando rica vestimenta, com aura épica e sedutora, em meio à natureza luxuriante dos trópicos. As ilustrações reconstroem o perfeito herói dos folhetins dos alvores do Romantismo. Essa construção não foi gratuita. Ela se deu ao gosto do imaginário sobre a ação destemida do colonizador nas terras do Brasil setecentista, imbuído da missão “bandeirante, modelo de agrado de certa historiografia em voga, que associava nosso passado colonial a uma idealizada ‘raça de gigantes’” (MARTINS, 2012, p.36)

Apesar do protagonismo masculino, vale destacar o papel importante de uma mulher, a Madame D´Orvilliers, como personagem crucial para a vinda do grão ao Brasil. Esposa do governador de Caiena, Claude d´Orvilliers, ela não é citada pelos documentos oficiais, mas seu nome aparece nas crônicas contemporâneas e na literatura sobre o café que narram a “epopeia” aventureira de Palheta à Guiana Francesa.

Madame D´Orvilliers aparece em texto de 1763, segundo o qual, findada a missão, Palheta seguiu até Caiena para agradecer ao governador as várias gentilezas que lhe havia concedido nas demarcações e no reconhecimento da fronteira entre as colônias (MARTINS, 2012, p.39)

“Assim, elegantemente paramentado, visitou o palácio e conheceu a esposa do governador, Madame D’Orvilliers, com quem experimentou pela primeira vez na vida uma xícara de café, o excitante elixir dos sentidos. A experiência lhe encheu de “gabos entusiásticos”, lamentando não existir na sua terra a planta da qual se extraía tão saborosa bebida. Ato seguinte, segundo o vulgo das descrições, saíram todos a passeio através de um cafezal, quando a anfitriã gentilmente ofereceu a Palheta – à vista do marido sorridente – “uma mão cheia de pevides de café, praticando a galanteria de ser a mesma que lhas (sic) introduziu no bolso da casaca” para que pudesse renovar, quando regressasse a Belém, o prazer que então experimentara com a deliciosa beberagem” (idem, p. 40)

A introdução do café no Brasil a partir do século XVIII foi decisiva para marcar o início de uma mudança econômica que se consolidaria no século seguinte. O sucesso de seu plantio em terras favoráveis mostrou aos colonizadores a possibilidade de se explorar um novo comércio num século em que a mineração havia mudado o eixo dos interesses metropolitanos para o sudeste.

A primeira exportação do grão do Brasil para Lisboa data de 1731 (MARTINS, 2012). Foram 7 libras (3213 gramas) enviadas até a metrópole conforme noticiou a Gazeta de Lisboa. O sucesso do café no Brasil fez com que a coroa, como forma de incentivar sua produção, isentasse o produto de impostos por 12 anos.

A ajuda, porém, não agradou aos produtores de uma região onde as chamadas “drogas do sertão” chamavam mais atenção do que a produção monocultora. Durante um bom tempo, a produção do café ficou restrita a pequenas propriedades do Norte e do Nordeste, onde o solo e a temperatura não eram os mais adequados para o cultivo de um grão de qualidade em larga escala.

A chegada do café no Sudeste, porém, mudou drasticamente esse quadro. Essa transformação está profundamente relacionada com a queda da produção aurífera durante a segunda metade do século XVIII. Em declínio, a mineração mostrava ser uma atividade finita e a retirada do metal da colônia resultou em uma situação delicada para os administradores locais e para a população, que viam sua principal fonte de renda esgotar-se paulatinamente.

A partir de 1760, o desembargador do Maranhão, João Alberto de Castelo Branco, chegou ao Rio de Janeiro e foi nomeado chanceler da relação. Segundo relatos recuperados por Ana Luiza Martins, mandou transferir de Belém para a província mudas do café arábico para experimentar uma nova cultura (2012, p.46).

A introdução do grão teve resultados muito promissores. As terras mostravam-se muito mais favoráveis ao seu cultivo e o café começou a ser cultivado em pequenas chácaras que se localizavam na cidade do Rio de Janeiro, de onde se expandiu para núcleos como Jacarepaguá, Campo Grande, Guaratiba e Santa Cruz (CPDOC), além de uma localidade então conhecida como “Caminho de Campo Alegre”, atualmente chamada de Resende.


Rugendas, Johann Moritz, 1802-1858.
Cascade de Tijucca [Cascata e parte da floresta da Tijuca com casal de negros espalhando café em terreiro].
Paris [França]: Engelmann, 1835.

Vale destacar que, além das condições favoráveis para o plantio e cultivo do grão e da situação econômica da colônia que impunha a necessidade de um novo “nicho de mercado”, a Revolução Haitiana de 1789 foi outro fator que beneficiou a expansão do café no Brasil. O processo haitiano, que culminou na Independência e na abolição da escravatura naquele país, afetou também a região das Antilhas, então produtora de café. A revolução fez elevar o preço do produto e deixou aberto um mercado com demandas a suprir.

Dos núcleos fluminenses, o café foi levado para São Paulo, região onde finalmente se fixaria como atividade agrícola fundamental para a urbanização e modernização do estado. Com o tempo, sua fixação aconteceu em regiões anteriormente ocupadas por engenhos produtores de cana-de-açúcar, locais marcados pela intensa atividade agrícola e saberes técnicos especializados.

No entanto, a penetração do café na província de São Paulo começou pela região de São José do Barreiro, Areias e Bananal, entre 1790 e 1797. “Espalhando-se pelo vale do Paraíba, atingiram Lorena, Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes, até Jundiaí, de onde teriam se originado os cafezais do oeste de São Paulo. Em 1797, o porto de Santos registrou a exportação para Portugal de 1.924 arrobas de café” (CPDOC, p.2).

Vale destacar que, durante a transição dos séculos XVIII e XIX, o café também foi produzido em menor escala na Bahia e no Triângulo Mineiro, com destaque para Araxá, cidade do interior de Minas Gerais, que despontou na produção cafeeira a partir de 1809. Entretanto, a região de Minas onde a cultura do café se desenvolveu mais densamente foi a Zona da Mata, pela sua maior proximidade com o Rio de Janeiro e suas condições favoráveis (CPDOC, p.2).

Dentre todas as regiões que experimentavam, no Sudeste, a cultura do café, o vale do Paraíba foi a que mais fixou e expandiu as atividades em torno do “ouro verde”. A região é composta da chamada “Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte”, integrada por 39 municípios do estado de São Paulo e pela “Região Sul Fluminense”, no estado do Rio de Janeiro, composto por cidades como Resende, Três Rios, Volta Redonda, Parati, Angra dos Reis, entre outras.

De acordo com Francisco Sodero Toledo (1974), uma série de possibilidades favoreceu esse fato. Além do conhecido fator geográfico, que em algumas regiões apresenta clima ameno e terrenos com menos erosão para o plantio do café no sistema das chamadas “ruas”, o fator social foi marcante, visto que os homens dessa região já estavam habituados, como destacado anteriormente, à produção agrícola.

O transporte também favoreceu inicialmente as chamadas “áreas de garupas”, composta por cidades como Areias, São José do Barreiro e Bananal. Foi nessa região que primeiramente o café se estabeleceu, visto que suas cidades eram mais próximas ao litoral.

“Como o transporte terrestre onerava na época cada tonelada do produto em 146 réis, por Km, concluía-se que quanto mais perto do centro consumidor estivesse o produto, mais lucro renderia, ao passo que em determinados locais, muito distantes, o café passaria a dar prejuízo, onerado pelo alto custo do transporte. Por esta razão Bananal e Areias conseguiram obter índices mais altos na produção de café até a metade do século XIX, no Vale do Paraíba Paulista. Além de estarem mais perto do centro consumidor, a cidade do Rio de Janeiro, conseguiram em pouco tempo desenvolver um sistema de ligação com o litoral. Construíram a estrada denominada Cesárea, em grande parte calçada, que em onze léguas ligava Areias e Bananal a Mambucaba” (TOLEDO, 1974, p.8)

Em outras regiões do Vale do Paraíba, por terem conseguido a ligação com o litoral só posteriormente, o café teve uma expansão mais lenta. No entanto, de acordo com Toledo, a situação se inverteu quando, na década de 1870, as estradas de ferro D. Pedro II foram concluídas, o que deslocou o eixo de produção de café para regiões interiorizadas.


Briggs, Frederico Guilherme, 1813-1870.
Coffee carriers [Carregadores de café].
Rio de Janeiro, RJ: Ludwig and Briggs, 1845.

Os dados sobre o período são bastante expressivos. Ana Luiza Martins (2012) destaca que existiam 8 produtores de café em São Sebastião, em 1798, número que salta para 19 em 1804. A partir de 1815, começou a crescer o número de produtores em cidades litorâneas como São Sebastião, Ubatuba e Vila Bela da Princesa (que a partir de 1º de janeiro de 1945 passou a se chamar Ilhabela).

“Na região de Areias, que então englobava Bananal, havia no ano de 1817 aproximadamente 200 produtores, com 1.000 escravos produzindo 100 toneladas do grão. A produção do vale é crescente, consignando-se que em 1836 vêm dali dois terços da produção do café paulista. E, mesmo com uma plantação esparsa, a capitania de São Paulo já enviava para Lisboa, por volta de 1790, suas primeiras remessas de café” (MARTINS, 2012, p.63).

A propagação da cultura do café pelo Rio de Janeiro e pelo vale paulista se beneficiou de uma rede importante de caminhos e portos que já existiam. Rotas como a Estrada de Lorena, os caminhos da Serra do Mar e das vias que levavam até o porto do Rio de Janeiro e o porto de Santos foram fundamentais para a comercialização do produto.

“Entre os portos marítimos estavam Paraty, Angra dos Reis, Mambucaba, Jurumirim, Mangaratiba, Ariró, Ubatuba, São Sebastião e Caraguatatuba. Entre os portos fluviais, foram muito utilizados o de Itaguaí, no rio do mesmo nome, o Iguaçu, também neste rio, os dois portos de Estrela, sobre o rio Inhomirin, no fundo da Baía de Guanabara, e o porto de Caxias, nas margens do rio Macapu. No rio Paraíba, encontravam-se os portos de Campos, São Fidelis, Porto Velho e Porto Novo. Desses portos, saíram estradas, de uso intenso, onde os próprios cafeicultores investiam, sabendo-se que a de Ariró, a mais utilizada, foi até mesmo calçada com pedras numa época em que isso era muito raro” (MARTINS, 2012, p.59)


Thierry Frères.
Convoi de café; Marchandes de café brulé.
Paris [França]: Firmin Didot Frères, 1835.

Foi em meados do século XIX, porém, que o café tomou um espaço ainda mais significativo na economia do Vale do Paraíba e das províncias do sudeste. De acordo com Ana Luiza Martins, “o sucesso do empreendimento cafeeiro no Brasil apoiou-se, primeiramente, na força de trabalho escrava” (Idem, p.110). O escravo africano associado à lavoura conferiu, portanto, uma lógica produtiva muito particular ao cultivo do café, definindo, segundo a pesquisadora, parte de seu arranjo espacial, as relações de trabalho, a forma de beneficiamento, o cotidiano e as práticas culturais no campo (idem, ibidem).

Ao contrário de outros produtos agrícolas, o café exigia uma divisão do trabalho mais complexa, e, portanto, a necessidade de utilizar um maior número de escravos desde o cultivo até a moagem. Se comparado ao engenho de açúcar, as lavouras de café possuíam uma lógica produtiva mais especializada, o que marcou um diferente grau de desenvolvimento do capitalismo colonial. A especialização do trabalho resultou na separação dos cativos mais resistentes fisicamente para a lida na lavoura, enquanto outros, considerados mais frágeis, eram utilizados “escravos domésticos” ou em tarefas que não exigiam tanto esforço físico (MARTINS, 2012, p.115).

O trabalho dos escravos nas lavouras de café foi se intensificando com o tempo. Após 1830, a queda da oferta de escravos fez valorizar o preço dos cativos. Consequentemente, exigia-se deles um maior rendimento no trabalho. Por isso, a disciplina e a rigidez das regras, além do açoite e da violência, foram marcas constantes nas lavouras.


Fazenda de Café. São Paulo, SP: [s.n.], [192-].

“Não havia normas jurídicas que coibissem os proprietários nas práticas de coação física para que o escravo “cumprisse a sua obrigação”. […]. Correntes, gargalheiras, tronco, algemas, peia, máscara, bacalhau, palmatória, golilha, ferro para marcas, eram objetos utilizados com frequência na aplicação dos castigos. Constante, porém, era o uso do chicote, aplicado pelo feitor – instrumento, inclusive, indissociável nas representações iconográficas desse personagem, praticamente seu símbolo”. (MARTINS, 2012, p.116)

A proibição do comércio negreiro a partir de 1831 e a Lei Eusébio de Queiroz de 1850, que proibia o tráfico de escravos, foram medidas que causaram a escassez da mão de obra escrava e a elevação do preço do cativo na colônia. Em função disso, os proprietários das lavouras também se viram diante da necessidade de substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre.

No entanto, esse caminho foi marcado por reveses, visto que, a despeito da proibição do tráfico, navios negreiros continuavam a chegar até a colônia. Além disso, os fazendeiros resistiam a admitir que o trabalho servil apresentava já baixa rentabilidade, além de temerem os conflitos sociais que o trabalho livre necessariamente implicaria (Idem, p.118).

A incorporação do trabalho assalariado iniciou-se com o uso da mão de obra de colonos imigrantes como italianos, portugueses, alemães, suíços e belgas, que trabalhavam, a priori, lado a lado com os escravos negros. A primeira experiência desse tipo aconteceu na fazenda Ibicaba (SP), hoje cidade de Cordeirópolis, na região de Campinas (SP), de propriedade do senador Nicolau de Campos Vergueiro (CPDOC), na década de 1840.

Chamado de “sistema de parcerias”, esse modelo foi implantado nas fazendas do estado de São Paulo com a incorporação dos trabalhadores imigrantes e funcionava com a mediação da Companhia de Colonização, criada por Vergueiro.  De acordo com Emília Viotti da Costa (1998), os colonos eram contratados na Europa e trazidos para as fazendas café, com as viagens e o transporte até a fazenda pagos. Esses colonos chegavam ao Brasil através de navios que atracavam principalmente no porto de Santos.

Aqui, os colonos eram integrados as fazendas e a eles eram concedidos uma quantidade de pés de café de acordo com a capacidade de trabalho da família. Além disso, era permitido que, nos espaços de terra entre uma “rua” de café e outra, se plantasse o necessário para a sobrevivência dos colonos. O sistema tinha como objetivo, portanto, “apenas dividir os lucros da colheita entre parceiro e fazendeiro, não de estabelecer um contrato de trabalho com salários regularmente pagos”. (MARTINS, 2012, p.119)

Além disso, todas as despesas de deslocamento dos imigrantes ao Brasil e à fazenda, bem como todo material necessário para começar o trabalho consistia num “adiantamento” ao trabalho desses colonos. Assim, antes mesmo do início do trabalho, os colonos já estavam endividados com a Companhia.

O sistema de parcerias implicava ainda na impossibilidade destes se retirarem das terras abruptamente e abandonarem a produção, além da necessária disciplina e rigor laboral (COSTA, 1998). As duras exigências e a incompatibilidade do trabalho livre com tamanho controle resultaram em rebeliões de colonos em várias fazendas, como em Ibicaba. Além disso, vale ressaltar que, em inúmeras vezes, os imigrantes foram “contemplados” com pés de cafés velhos em faixas de terras pouco produtivas, o que impedia a lucratividade do cultivo.

Rapidamente, portanto, esse sistema declinou. Emília Viotti da Costa ressalta que um dos motivos para o fracasso foi justamente a dificuldade dos fazendeiros de compreender a “verdadeira estrutura” e as “finalidades do trabalho livre”, bem como sua pouca disponibilidade para a aceitação dos padrões de comportamento que o regime de trabalho livre pressupunha” (DA COSTA, 1998, p.224). Essas características eram típicas de uma classe de fazendeiros cuja mentalidade estava marcada há décadas pela exploração do trabalho escravo.

Apesar do fracasso desse sistema de parcerias, os fazendeiros lançaram mão de outras formas de trabalho assalariado na região, como o colonato. Esse novo modelo de trabalho foi viabilizado pela articulação entre o Estado e a Sociedade Promotora da Imigração, criada na década de 1880. Assim, a imigração de estrangeiros foi subsidiada pelo governo, através de recursos públicos, poupando o fazendeiro de investir na aquisição e estabelecimento do trabalhador (MARTINS, 2012).

Apesar da propaganda sedutora, vale destacar que o labor dos trabalhadores livres nem sempre era remunerado adequadamente. A exploração da mão de obra e as condições precárias resultaram em incontáveis conflitos e a violência no mundo do trabalho era uma constante nas fazendas de café.

“Os imigrantes enfrentaram adversidades de toda ordem, da exploração advinda do não cumprimento dos contratos aos problemas de adaptação ao Brasil. Estranharam o clima, a alimentação, as doenças tropicais e a forma de arar a terra. Estiveram sujeitos a maus-tratos por parte do cafeicultor de tradição escravocrata, ao estigma de substitutos de escravos, à violência e ao banditismo do campo. Muitos ainda conviveram com os escravos, numa tensa relação de incompreensões mútuas (MARTINS, 2012, p.128-129)

Além disso, a política de “importação” da mão de obra livre revelava uma estrutura racista do mundo do trabalho nas fazendas, na qual os proprietários muitas vezes se recusavam a contratar escravos recém libertos. Esse fato atesta uma política e um sistema social pautados racialmente, que preteriram a mão de obra livre e assalariada negra, e excluíram os ex-escravos da possibilidade do trabalho remunerado, favorecendo o colono estrangeiro.

O deslocamento da produção do café do Vale do Paraíba para outras partes de São Paulo foi também favorecido por uma política de grupos conservadores que defendiam os interesses dos agricultores junto ao poder imperial e, de acordo com Ana Paula Martins ele pode ser dividido em três fases.

Em 1854, aproximadamente, o cultivo se estabeleceu nas fazendas da região de Campinas, em 1886, chegou até a região Mogiana e do leste paulista, local onde a produção terá amplo alcance até início do século XX. Em 1920 e 1935, a produção do café no estado mostrou a expressividade das fazendas da região de Araraquara e Sorocaba, e das regiões oeste do estado, respectivamente (MARTINS, 2012, p.77).

“No último decênio do século XIX, desde que o café chegou à região do rio Mogiguaçu e rio Pardo, formou-se o centro produtor da melhor qualidade de café. Enquanto o grande centro produtor era o vale do Paraíba, a comercialização se fazia pelo Rio de Janeiro, centro financeiro e controlador da economia cafeeira. Com o deslocamento da zona de cultura, a exportação principal passou para o porto de Santos, iniciando-se então o surto de desenvolvimento paulista. Desde o começo da década de 1880, o Brasil se tornara o maior produtor mundial de café. O café passou a representar grandes e novas possibilidades de acumulação de capital, e esse processo se tornou conhecido como o “ciclo do café”. Em 1889, ano da Proclamação da República, a produção atingiu 5,586 milhões de sacas de 69 kg. Ao iniciar-se o século XX, só as exportações do produto chegaram a 14,7 milhões de sacas” (CPDOC, p.03).


Ferrez, Marc, 1843-1923 . La recolte du café. [1870-1899].

A expansão do café pelo estado de São Paulo favoreceu amplamente o desenvolvimento social, político e econômico da região. Por um lado, o capital acumulado dos negócios promovidos pelos cafeicultores promoveu a modernização dos sistemas de transporte, com destaque para as ferrovias, bem como urbanização das cidades, mudanças necessárias para a ampliação das redes comerciais.

Ivanil Nunes defende destaca que a ocupação ferroviária do estado de São Paulo experimentou seu auge a partir da criação da Estrada de Ferro D. Pedro II, que servia regiões como o Vale do Paraíba, o norte de São Paulo e o sudeste de Minas Gerais. A interligação dessas regiões por meio dos trilhos tinha como destino, evidentemente, o porto de Santos. Essa organização espacial, mostrava uma mentalidade logística avançada dos homens de negócios da região, que promoveu a interligação de diferentes modais, como o terrestre rodoviário, o ferroviário e o portuário.

Outros traçados também acompanharam o escoamento do café para o porto e isso determinou a expansão da exploração do café pelo oeste paulista.  A partir da década de 1870, essa expansão se consolidou com as ferrovias que ligam Jundiaí a Santos e com a inauguração de importantes companhias: a Paulista, em 1872, a Itaúna, em 1873 (que se fundiu à Sorocabana em 1893), e a Mogiana, em 1875. (NUNCES, s/d, p.2)

Além disso, as estradas de ferro permitiram a dinamização das relações econômicas e viabilizaram um escoamento muito mais eficiente do café, barateando os custos com o transporte.


Gaensly, Guilherme, 1843-1928.
S. Paulo [Iconográfico]: S.P.R. Alto da Serra II, [entre 1905 e 1910].

São promotoras desse desenvolvimento a Estrada de Ferro Sorocabana, fundada em 1875, a Estrada de Ferro Araraquara, em 1898, e a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1904. Na virada do século, havia dezoito ferrovias em São Paulo numa extensão de mais de 3 mil quilômetros (NUNES, s/d, p. 2)

Em um trabalho bastante detalhado sobre a expansão da malha ferroviária em São Paulo a partir da segunda metade do século XIX, Flavio de Saes afirma que o protagonismo ferroviário no estado foi exercido por três principais companhias: Paulista, Mojiana e Sorocabana. Para o autor, elas desempenharam uma síntese nos fluxos de transporte entre interior, capital e litoral, que foi capaz de alçar o estado de São Paulo a uma posição de destaque no cenário nacional (1981, p.29).

No período considerado pelo pesquisador, que vai de 1854 até 1940, São Paulo pulou de 139 quilômetros de trilhos em 1870 para 7540 quilômetros em 1940, abrigando cerca de 22% da malha ferroviária de todo o Brasil.  Entre 1875 e 1880, auge da expansão ferroviária no estado, São Paulo chegou a ter mais de 35% da malha ferroviária do país (DE SAES, 1981, p.24).


Manuel, F. (Frédéric).  São Paulo Railway Company [Iconográfico] : Serra do Mar. s/d.

Saes acredita que esse percentual só não foi maior por causa dos limites geográficos do estado de São Paulo. Além disso, vale destacar que a expansão da malha ferroviária no estado aconteceu de forma singular, impulsionada pela expansão das lavouras de café e o processo de ocupação do leste paulista, cujas cidades foram positivamente impactadas pelo cultivo do grão e o aumento da densidade populacional.

Do ponto de vista econômico, o café fomentou o nascimento e consolidação de uma nova classe de homens de negócios rurais, os cafeicultores. Esses proprietários rurais se diferenciavam dos antigos senhores de engenho. Eram mais “modernos” e tinham visões mais inclinadas à expansão do capitalismo e da infraestrutura, ainda que continuassem conservadores em suas ideologias e reproduzissem uma lógica de trabalho baseada na exploração da mão de obra escrava.

Do ponto de vista político, é relevante o fato de que os cafeicultores e homens rurais da região Sudeste se favoreceram de políticas criadas durante o Império, que se desdobraram, portanto, na criação de ferrovias, rodovias, e de marcos regulatórios para o comércio e produção do café. Ao se tornarem também homens do mundo político, os ruralistas de São Paulo compuseram as oligarquias dominantes durante os primeiros anos da República.


Cartão Postal.
Santos: Carregadores de café com 4 e 5 sacos.
Santos, SP: M. Pontes & Co, [1909?].

“São Paulo tornou-se assim o principal centro produtor de café no Brasil. A partir de então, operou-se o deslocamento da liderança econômica das velhas regiões agrícolas do Norte e Nordeste para as mais recentes do Centro-Sul. Esgotada a fertilidade do solo, como aconteceu na região fluminense, os cafezais deslocaram-se também do vale do Paraíba para o planalto de São Paulo. A ocorrência de “terras roxas” orientava a chamada “onda verde”, de Campinas para o norte e o oeste do planalto” (CPDOC, p.03).

O café foi a principal atividade econômica no Brasil até 1929, quando a crise financeira da Bolsa de Nova Iorque derrubou os preços e o consumo do produto. Além disso, a primeira guerra mundial havia beneficiado a indústria brasileira e o sistema produtivo agroexportador dava mostras de esgotamento nesse contexto.

Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e o fim da chamada Primeira República, o sistema de industrialização por substituição de importações dará ao Brasil novos referenciais produtivos e econômicos, reduzindo a produção do café.

Mesmo assim, a agricultura continuou sendo a principal atividade econômica do país, dando mostras de seu potencial de diversificação e renovação. Dentre os produtos desse setor, o café continua sendo um dos principais produtos do agronegócio brasileiro, com expressivo consumo interno e demanda por exportação. O ouro negro, portanto, continua exercendo um papel importantíssimo no desenvolvimento econômico e social brasileiro.

 

Referências Bibliográficas:

Brasiliana Fotográfica. Francisco de Melo Palheta. s/d.

DA COSTA, Emília Viotti. Da Monarquia à República: momentos decisivos. Unesp, 1998.

DE SAES, Flavio Azevedo Marques. As ferrovias de São Paulo, 1870-1940. Editora Hucitec em convênio com o Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, 1981.

CPDOC-FGV. Verbete: Café.

MARTINS, Ana Luiza. História do café. Editora contexto, 2012.

NUNES, Ivanil. “Café, ferrovia e o fim da era ferroviária em São Paulo”. ABPHE. s/d.

TAUNAY, Affonso de E. História do café. Rio de Janeiro: DNC, 1941.

TOLEDO, Francisco Sodero. O ciclo do café no Vale do Paraíba e o processo de Independência. Revista da Faculdade Salesiana. Lorena, p. 75-97, 1974