Ipanema, nosso avião

Este é um artigo que, na verdade, não gostaria de escrever. E muito difícil, nos dias atuais, dizer o que realmente sentimos, porque nossa raça está tão contaminada pela bajulação etc. Não pretendo fazer média com ninguém, mesmo porque fazer média nunca foi meu fraco. Mas acontece que não tenho mais paciência para ouvir tantos pilotos e até leigos colocar defeitos e mais defeitos no Ipanema.

Quando saiu o primeiro Ipanema, o 260 passo fixo, eu disse para os meus botões: é com este que eu vou. Aquele avião era uma tragédia e mesmo assim, vi muitos pilotos o elogiarem. Bem, depois veio o 260 passo variável e este já era um bom avião. Diziam então que o novo Ipanema era muito pesado e que tinha pouco motor. Então surgiu o Ipanema 300 e a fama de mau avião perdurou. Tanto que volta e meia vem um sujeito que nunca pilotou avião nenhum, um leigo qualquer, perguntar se é verdade ou não que “este” avião não presta. Não é necessário dizer que o leigo foi informado (mal informado, diga-se de passagem) por um aviador. Desta má fé com o Ipanema é que discordo totalmente. Acho que os fabricantes do avião fizeram muito em pouco tempo, considerando que tem muito avião-agrícola importado por aí com defeitos berrantes. Conheço um piloto que pretendia fazer o CAVAG, mas não o fez porque tem “medo tétrico” do Ipanema.

Observação: ele nunca fez um turno de pista em Ipanema nenhum. Se formos ao fundo da questão, encontraremos “Ipanemofobia” aguda das mais cômicas. É claro que existem aviões-agrícolas melhores que o Ipanema, todos nós sabemos disto, mas tachar e malhar o nosso avião só pelo prazer de criticar, acho um tanto obsceno. Devemos lembrar que atualmente temos muitos outros aviões-agrícolas voando no Brasil. Chegará o dia em que isso não mais irá ocorrer, se o nosso governo continuar com a política de não importar aviões-agrícolas de outros países. E então? No que irão voar estes sofisticados aviadores que não pretendem segurar o manchete do Ipanema? Há três anos que só tenho voado Ipanema 300, o EMB 201, e nele tenho me sentido tão à vontade como sentia-me num PA-11 adaptado. Em Mato Grosso operei em pistas curtas (Fazenda União) com o tanque de produtos até a tampa e mais 100 litros de gasolina. Era aplicação de fungicida, vazão alta, e tinham que render as decolagens. E renderam.

Para os desconfiados, as folhas de bordo ainda existem, comigo e na companhia. E quanto ao “balão”? É um avião igualzinho aos outros, porque “balão” é o produto da qualidade, respeito e bom senso de um piloto-agrícola. Pensem nisso, até muitos balões. Salve a Aviação!

 

Autoria: José Rubem Pacheco Bruk *

Data: 01 de dezembro de 1977

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(*) Piloto-agrícola