Questões do tráfego
Em se tratando dos serviços que incumbem aos ferroviários em função nas estações, não se pode prescindir de algumas considerações sobre a disposição do local em que vão ser essas funções desempenhadas.
Como já temos dito em capítulos anteriores, compete aos Chefes de serviço dar aos pátios das estações e edifícios em que estes se vão instalando, disposição adequada a finalidade que tem de preencher sob o aspéto propriamente técnico ferroviário e, também sob aquele que se refere ao ambiente social.
A disposição acertada das linhas do pátio de uma estação, de suas plataformas, armazéns e edifícios para instalações de moradias do pessoal e serviços acessórios, não depende apenes de uma boa técnica no projeto e respectiva construção da obra de engenharia propriamente dita; ha, na escolha dessa disposição geral, circunstâncias de ordem economica, social, política e comercial que não podem deixar de entrar na consideração dos administradores.
O desenvolvimento dado as linhas do pátio está na dependência da espécie de serviço que nele será executado, pois as manobras para composição dos trens, de passageiros ou de mercadorias, são diferentes e obrigam a colocação dos carros ou vagões de forma diversa. Assim, para facilidade da carga e descarga dos vagões de mercadorias, as Iinhas do pátio deverão ser alcançadas em pontos acessíveis aos veículos usados pelo comercio e indústrias locais, sem que tais vagões fiquem muito afastados da agência ou dos escritórios dos armazéns, onde permanecem os empregados responsáveis pela fiscalisação dos carrega- mentos, recebimentos dos fretes, despachos etc.
Naturalmente essa disposição do pátio muito variara do que for necessario a uma grande estação compositora, como são, por ex. – as estações Marítima e Eng.ª S. Paulo, na Central do Brasil, onde se movimentam mais de 400 vagões por dia, entrando ou saindo, daquilo que for suficiente para uma estação já menor, como, por ex .. Sorocabana. na E. F. Sorocabana, ou outra ainda menor como seja São Bernardo, na São Paulo Ry. Em cada uma dessas estações as operações do tráfego são diferentes e, mesmo quando iguais, poderão ser executadas de maneira diversa: assim, enquanto que em uma grande estação compositora inicial, como marítima os vagões podem estacionar em linhas onde encontram muitos auto caminhões ou carroças, ao mesmo tempo. para os carregamentos, já nas outras estações o vulto de tais carregamentos diminue e os embarques poderão ser feitos, diretamente, nos vagões dos trens chamados coletores ou manobreiros que passarão mais tempo em cada estação
É claro que uma boa disposição dos pátios, facilita o aproveitamento dos recursos da tração e do próprio movimento, permitindo a rapidez nas operações de composição dos trens, por meio de manobras simples em vários desvios bem distribuídos, mas essa vantagem será desperdiçada si o pessoal das estações, agentes e seus auxiliares, não forem em número suficiente e tenham habilitações para o exercício de suns funções.
Por isso, quando dissemos ser conveniente não afasta a agencia central desses pontos de manobras e carregamentos, estamos considerando a necessidade da fiscalisação dos chefes e encarregados de armazéns sobre as operações em curso, que são, de ordinário, entregues a fiscalisação imediata dos guardas ou praticantes do tráfego.
Nos pátios das estações sinalisadas, onde funcionem cabines aperfeiçoadas, comandando as manobras e movimentando as chaves dos desvios por meio de eletricidade, a disposição das linhas vai depender das possibilidades de ordem técnica dessa adaptação, mas, mesmo nesse caso, as conveniências das ope- rações do tráfego devem ser as orientadoras do projeto.
Os modernos sistemas de bloqueio e sinalisação muito facilitam as manobras nos pátios das estações compositoras, mas, é indispensável a preparação do pessoal das estações para o real aproveitamento dos recursos materiais postos a sua disposição.
A organisação das estações deve olhar tais detalhes porque, do contrário, instalações de elevado custo ficarão mal aproveitadas economicamente e sob o ponto de vista industrial não darão os resultados completos indicados nos projetos. Casos bem típicos, da necessidade dessa adaptação tivemos na Central do Brasil quando as cabines eletrico-mecanicas entrarem em funcionamento nas estacoes de Belém e Juiz de Fora.
Na primeira dessas estações, pela extensão do pátio e vulto das manobras, foi instalado em sistema onde havia duas cabines, distintas, para manobras na parte inferior ou superior desse pátio; essas cabines eram interligadas por comunicações elétricas de travamento e telefonicas, não permitindo a segurança do sistema de manobras sem perfeita garantia nos respectivos pátios ou entre eles; mas, essa segurança suplementar e indispensável, lá se tornando um entrave na rapidez das manobras devido à má compreensão inicial do pessoal na maneira de interpretar os sinais e usar os aparelhos de travamento. Logo, porém, que os empregados de estação, agentes e cabineiros, conseguiram melhor adaptação a aparelhagem. convencendo-se de que as medidas de prevenção deviam ser empregadas de maneira obrigatória no próprio interesse do serviço. tudo passou a ser executado da melhor maneira.
Mais moderno é o caso de Juiz de Fora, onde a aperfeiçoada cabine elétrica, ali instalada êste ano, foi acoimada de prejudicial ao serviço, porque êste só pode ter início depois de devidamente executadas operações elétro mecânicas garantidoras das manobras em curso.
Enquanto o pessoal não se capacitou de que tais operações feitas na devida ordem, sucessivamente, não eram motivo para qualquer retardamento, pois que a posterior movimentação dos trens e locomotivas, passava a ser feita de maneira mais desembaraçada pela segurança que a sinalisação oferecia, foi a instalação tida como ruim e inútil. Já agora outra mentalidade domina desses empregados e o custeio geral da estação está aliviado da despesa que era feita com cêrca de 30 agentes, guarda-chaves e trabalhadores, que foram transferidos para outras estações.
Da disposição dada a agência, armazéns, escritórios, almoxarifados e demais serviços das estações, vai depender a organisação comercial e industrial destas. Uma parte das operações entregues ao pessoal das estações, pode ser tida como de ordem comercial, pois trata-se de venda de bilhetes: para os passageiros e escrituração das expedições apresentadas a despacho: para os passageiros e preciso destinar pessoal com habilitações apropriadas a tal serviço e que possua relativa calma e boa disposição para receber as solicitações e reclamações dos passageiros, de maneira que fiquem satisfeitos ou conformados. Muitas vezes, a finalidade das disposições internas das emprêsas ou exigências do Regulamento Geral dos Transportes não é bem aceita ou mesmo compreendida por esses passageiros, caso em que os empregados das estações precisam ter capacidade e jeito de os induzirem na maneira mais adequada aos interesses comuns.
O arranjo interno do edifício das estações, a distribuição do pessoal pelas diversas seções e as escalas de trabalho, são encargos que cabem as seções do Trafego que, em cada trecho, são diretamente superintendidas por um Inspetor ou Fiscal de Estações. Havendo nos ser- viços das estações muita responsabilidade de ordem moral e tambem financeira, de que vai depender o bom nome da ferrovia ao executar os transportes que os clientes lhe confiam. em cada função deve ser colocado o empregado que melhor requisito apresente para isso.
Nas estações em que os quadros do pessoal forem maiores, essa distribuição poderá ser atendida de forma mais completa; mas, nas estações pequenas, que são em maior número, os empregados são obriga- dos a seguir uma escala de rodizio não havendo como fugir dessa contigência de ordem material.
É, para tais casos, que a argúcia e prática dos Chefes e escalantes deve ser chamada a intervir, fazendo com que as equipes de cada es- tação possuam elementos funcionais que se equilibrem em habilitações e capacidade, de maneira que a média do serviço das estações, desse gênero, suba em rendimento para proveito do público.
A escrituração de uma estação exige uma série de livros e registros indispensáveis a regularidade das operações de Movimento dos trens, circulação dos vagões e encaminhamento das expedições das mercadorias a transportar; ainda, entre tais livros, encontram-se aqueles que se destinam ao registro do movimento financeiro das estações sendo êles especiais porque numerados de forma diversa, com seriação.
Ha necessidade de se manter um certo número de livros e registros nas estações, não só para conforte e entregues as partes, como para apuração de dados estatisticos que permitam avaliar os resultados, financeiro e industrial, das operações dos transportes.
Contudo, nunca será demasiado pedir a atenção dos responsaveis pelos serviços Comerciais de Estatistica, Financeiros ou de Contadoria, para que não exijam muita documentação das estações, onde os empregados já têm na movimentação dos trens e das mercadorias tarefas bastante absorventes. Acontece, muitas vezes, que cada um desses chefes superiores pede uma série de relações que vai recair multiplicada em cima do empregado da estação; isso tem prejudicado a simplicidade que deve existir no serviço de escrituração das estações criando a necessidade de manutenção de verdadeiros escritórios.
Ainda nos estenderemos sôbre o assunto do presente capitulo em notas que ficarão para o próximo número.
Autoria: Arthur Reis *
Data: 01 de setembro de 1946
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(*) Engenheiro da Central do Brasil